Ouvindo o silêncio

Você já parou para ouvir o silêncio?

Não, você não leu errado.

Te pergunto se você já prestou atenção no que convencionamos chamar de ausência de ruído e voz. Mudez absoluta. Quando não há som. Sabe do que estou falando ou não costuma ouvir os silêncios da vida?

O silêncio é um tagarela enrustido. Dependendo da sua intensidade, pode dizer mais que um monólogo. Há silêncios que esclarecem, mas há também os que confundem, os que plantam caraminholas e os que tornam desnecessárias as palavras. Há os silêncios acidentais, os ocasionais e até mesmo os planejados. Os curtos e os que parecem jamais terminar.

Tem gente que só se comunica por meio dele. Mas há quem não consiga suportá-lo.

O silêncio pode estar intimamente ligado a sentires completamente antagônicos. O amor tem seus silêncios… A indiferença também.

De aparência mansa, ele é traiçoeiro. Permeia discussões a espera de um passo em falso das palavras. Quando elas se perdem. Se desdizem… Se anulam…

Ele surge.

Mesmo quando se atropelam e se sobrepõem, lá está ele. Triunfante, gosta de bater o martelo. Não subestime seu poder.

Inibindo as palavras, ele aguça outras formas de linguagem, tão ou mais poderosas… O silêncio ajuda a denunciar sentimentos – passando por nervosismo, aflição, medo, raiva, amor – em gestos mal calculados e sutis movimento dos músculos do rosto.

Há silêncio no beijo… E também no adeus.

Muitos o abominam por relacionarem-no à solidão…. Os mais solitários, certamente. Os que não se bastam.

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Calmo. Tudo está tão calmo que o silêncio dói os ouvidos. Ensurdece.

Pensando bem, talvez o silêncio seja também a voz da solidão. Sua forma de se expressar. Seu diálogo conosco.

O silêncio me engole. Me grita. Parece que tenho uma concha nos ouvidos. Estou parada. Procuro fitá-lo, mas ele não me olha. Capturo seus diferentes timbres.

Prendo a respiração e constato, através do som, que estou viva… Ouço o bombear do sangue pelo coração irrigando meu corpo.

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Hoje não quero música.

Vou ouvir a vida em mim.

Como tratar o intratável

Não combata o amor.

Não tenha medo dele.

Nem o espante com ameaças.

Não o afaste. Se amedrontado e inseguro, ele se vai. Ou nem vem. Não consegue ser inteiro. Presente de corpo e alma.

Não o mime. Não o diminua. Trate-o de igual pra igual. Mas não perca o sono se não conseguir colocá-lo em pé de igualdade. Cada um cria seu modus operandi.

Que o amor seja doce. Mas não enjoativo.

Não o force. Nem insista nas suas cismas. Como dizem, se você ama a flor, não a arranque. Deixa-a ser, bela. Nem que para isso precise estar longe de você.

O que não vem naturalmente não tem forças para ficar. Unilateral, é uma farsa.

Mas se vier, cuide. Não deixe escapar. Escorrer pelas mãos. Se perder nos seus descuidos. Nos seus tropeços.

Quem não sabe cuidar, não merecer ter.

Não estava pronto? Não era amor. Se preciso, ele sai de pijama e remela nos olhos. Sabe se arrumar em instantes para o encontro de sua vida. Intuitivo, ele também é sábio.

Mas trate-o como uma criança. Uma criança que já aprendeu a brincar sozinha e se bastar na própria presença. Amar não é encontrar uma muleta que te ajude a caminhar. É buscar algo  que te permita ir mais longe.

Trate-o como a criança que olha sempre como se estivesse vendo pela primeira vez, apaixonada, numa autêntica fascinação. Não como quem, cansado de enxergar, já tenha os olhos opacos.

Trate-o como um cão. Que vai te confiar todo o seu amor sem que você tenha nada a oferecer em troca, apenas o seu em retribuição.

Trate-o como uma panela em fogo baixo. Numa espera paciente que só realce o sabor. Mas cuidado para não deixar queimar.

Trate-o como tratamos os mais velhos, com respeito, admiração e medo de perder.

Trate-o como um militante trata seus ideais, suas convicções. Que deixa irradiar pelo corpo e sair em forma de grito o sentimento exacerbado, sem vergonha em mostrá-lo.

Trate-o como tratamos as unhas recém pintadas. O vestido passado. A toalha emprestada. O desenho do filho. A carta escrita a mão. O trabalho impresso. As noites de sábado. A calma da madrugada. Um pássaro caído do ninho.

O que sentiu quando deixou de sentir

Sentimos, inebriados, o chocolate derretendo na boca. O banho de mar num dia de verão. O vento nos cabelos. A barba no rosto. As palavras que sempre quisemos ouvir.

Com lágrimas nos olhos, a ferida na pele. Na alma. O anúncio da partida.

Sentimos, de estômago embrulhado, a acidez do limão. O espinho do cactos. O silêncio que nos agonia. O talvez que nos desnorteia. A aversão que nos consome. O vazio.

Sentir. A língua portuguesa é tão rica, mas só dispõe desse verbo – “ter” também poderia ser empregado, mas é ainda mais abrangente… – para expressar o que acontece conosco e dentro de nós? Não é possível que frio e alegria tenham que ser exprimidos pela mesma ação!

Sentimos cócegas assim como sentimos fome, dor… Não como sentimos raiva, medo, pena.

O que sentimos na hora do desastre, da solidão, do amor, não se cura com soluções imediatas. E é por esse intratável que respiramos ora ofegantes, ora em busca de ar…

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Indignada, decidiu não sentir mais. Cansou de sentir tanto, tão intensamente. Tão constantemente.

A cabeça se recusou a continuar a registrar imagens, destrinchar sentimentos, decupar interpretações…

Quando olhou o retrato, quando se ocupou com a falta de notícias, quando vasculhou pistas, quando se exauriu em especular e buscar soluções… Desistiu.

Não pôde mais reagir, pelas exaustivas tentativas anteriores.

Não gosta de perder, mas perdeu. Saiu de cena. Fechou a porta. Foi-se.

Constatou que nem todo mundo sente de verdade.

Numa atitude suicida, arrancou o coração do peito. O último suspiro do seu sofrimento.

Mas o que sentiu quando tentou deixar de sentir acabou sendo o mesmo que sentiu para tentar sentir.

Aquele “je ne sais quoi”…

Charme. Uma qualidade tão desperdiçada. Uma palavra tão gasta.

Fulana não é bonita, mas tem alguma coisa…

Sicrano é feio, mas é charmoso….

Hmmm… Desenvolva.

O charme foi banalizado. Usado educadamente quando faltam adjetivos, quando o quesito “beleza” não cabe, quando o interlocutor é um observador sem imaginação.

Elogio barato. Usado à exaustão. Pau pra toda obra.

No dicionário, charme é “atração, encanto, sedução, simpatia”.

No senso comum, borogodó, presença, luz. Sal, pimenta e todo tipo de tempero que condimenta alguém.

O charme é subjetivo. Mas pode ser unânime e indiscutível. Pra cada um, ele aparece em uma sutileza distinta, num misticismo encantador, na espontaneidade.

O jeito de piscar. A voz rouca. A sobrancelha que arqueia mais que a outra. A pinta no canto do rosto. A cicatriz na borda do queixo. O nariz avantajado. A ruga do riso dos olhos. A mancha na íris de apenas um olho. O chumaço de cabelos brancos fora de época. O riso farto. A maneira de gesticular. A barriguinha. O rubor incontrolável das maçãs do rosto. O tropeço. A timidez cativante. O copo quebrado no primeiro encontro. A lágrima que escapa numa boba comédia romântica.

A qualidade que surge no defeito. A desconcertante naturalidade. A perfeita imperfeição que nos conquista. O que desperta o olhar justamente por ser incomum.

A perfeição é tediosa.

E o “je ne sais quoi”… Ele plait beaucoup…

Colocaram Mentos na nossa Coca-Cola

Hoje não sei sobre o que escrever.

O desafio da página em branco é um mal que todos aqueles que escrevem
enfrentam. Ela nos assusta um pouco. Ela nos impõe expectativas — as
primeiras palavras que pusermos na folha devem ser boas, pensamos, devem
justificar a violação, honrar a virgindade da página branca.

Mas não venho aqui hoje falar da falta de inspirações e conflitos
necessários para algum tipo de narrativa fluir. Não. É justamente o
contrário.

O que fazer quando a mente fervilha de ideias, pontos de vista, observações?
Como agir quando a história acontece, ali, diante do seu nariz? Quando você
percebe que ajudou a escrever o novo conteúdo que vai constar nos livros da
história que seu filho vai estudar?

Eu gostaria de enaltecer os que se organizaram nas redes sociais, os que
deram a cara à tapa, os que sofreram agressões policiais por lutarem com a voz.
Me orgulho dos que cansaram das falcatruas da máquina do Estado e abriram a
janela para urrar o que lhes enfurece, envergonha, oprime, desrespeita. Num
dos bordões dessa revolução, que começou pelo aumento das passagens de
ônibus, mas evoluiu para um protesto contra a impunidade, violência e
inflação e por melhorias e investimentos em educação e saúde, “não são vinte
centavos”. É muito maior, e melhor, que isso.

Nós, a juventude, soltamos o grito entalado pelo escândalo do Mensalão, pelo
superfaturamento de obras, pelo desvio de verbas públicas, pela falta de
qualidade da educação e da saúde, por todos os absurdos que vemos com
frequência no país do samba, do futebol e da corrupção. Cuspimos a
indignação do descaso das autoridades com os problemas econômicos que o país
enfrenta. Reagimos ao pingo que transbordou o copo, a lascada que quebrou de
vez a louça. O aumento injustificável de um serviço pífio ferveu o sangue de
vez.

Você não sabe a força que tem até precisar dela. E foi isso que aconteceu.
Mesmo exauridos por demorar 3 horas ou mais para chegar ao trabalho todos os
dias, os insatisfeitos com a má qualidade do serviço do transporte público e demais doenças que
têm se mostrado crônicas no nosso país – roubalheira é apenas uma delas -,
venceram o cansaço para protestar.

Mas os protagonistas das avenidas foram os jovens.

Colocaram Mentos na nossa Coca-Cola.

A geração Y, dos alienados ou do que você quiser chamar, saiu da zona de
conforto e olhou além do próprio umbigo, da própria celulite e dos próprios
bíceps. Sem nenhuma passividade, usamos os telefones, que não largamos de
jeito nenhum, para nos organizar e mostrar o que a TV não cobriu.

A coragem dos que foram pacificamente às ruas, no entanto, não pode se
deixar macular pelo vandalismo de alguns. Aqueles que depredaram prédios
históricos e invadiram instituições não representaram os comprometidos com a
causa, nem irão manchar a beleza da luta branda dos manifestantes.

Bom, é nisso que dá não oferecer educação de qualidade aos alvoroçados
filhos da pátria, autoridades… Pensem nisso da próxima vez.

O Brasil enfrenta um momento delicado em sua história. A inflação
desgovernada pesa no bolso, faltam lideranças políticas e o PT já ficou
tempo demais no poder. Que os protestos não percam a finalidade e o tom de
insatisfação. Que não haja mais violência. Que realmente provoquem mudanças.

Sempre que choveu, parou

Da janela escuto. Da varanda espio. Encolhida. É junho, faz frio. O dia está tristemente belo. Chove.

As ruas estão desertas, banhadas pelo céu. Opaco e alvo, ele contrasta com a copa das árvores, que recebem a água com alegria. No contraluz, as gotas caem entortadas pelo vento gélido. Sem plano de voo, elas desabam sobre os esportistas na ciclovia, os trabalhadores apressados que saltam do ônibus, os transeuntes distraídos, os pássaros que seguem para o norte.

Reclusa, evito a chuva. A observo de longe, como fazemos com um ídolo, com um amor platônico. Mantemos distância. Respeito. Algum tipo de admiração. Por sua força. Sua vitalidade para a terra. Ou para nós.

Gota por gota, elas deslizam pelo vidro, se fundem e desfalecem.

A chuva se estatela sem medo sobre o pavimento num chiado. Ela se infiltra pela grama e atinge o coração do planeta. Ela renova e refaz.

Me rendo e me entrego à ela. Deixo a água molhar a testa, os cabelos. Acho graça da gota presa aos cílios. Homeopaticamente, sinto seu gosto delicado.

É só chuva.

Mesmo depois dos raios dizimarem as aldeias e as chuvas arrastarem os barracos, parou.

Parou quando a madrugada parecia vir abaixo, quando o horizonte sumiu de vista, o ar ficou espesso e leitoso como a neve… Quando as ruas viraram rios, o céu virou o pranto dos desesperados. Parou.

Parou ao cair da noite, quando nos acostumávamos com o som contínuo e aflito das gotas golpeando a superfície. Parou quando o mar, enfurecido, parecia se habituar à doce violação que vinha dos céus.

Parou depois que os amantes se encharcaram, e, inundados na própria paixão, nem se deram conta.

Parou com o despertar de mais um dia. Cansada de manter reféns enclausurados, parou para deixar a vida acontecer do lado de fora.

Parou involuntariamente, nublando o dia em represália.

Mas parou. A chuva parou. Sempre que choveu, parou.

Um encontro

Talvez seja um sinal. Talvez você não deva vê-lo, nem achá-lo na sua busca incessante. Talvez você não deva forçar o acaso fabricado. A tentativa é uma ofensa, um desafio que a roleta russa da vida não gosta de sofrer.

Furiosa, ela se volta contra nós… Numa ira pedante e teimosa.

O acaso não intercede em nosso favor quando bem entendemos. Ele não joga no nosso time. Ele é curinga. Híbrido. Vendido. Duas caras. Ele nos trai quando menos esperamos. Nos frustra. Nos assusta.

Não devemos provocar o acaso.

Pensando bem, talvez isso queira dizer que você não deva encontrá-lo assim, sem mais nem menos…

Numa banalidade que não combina com nenhum dos dois. Nem com o que construíram em desconstrução.

Nem tampouco encontrá-lo na artificialidade da pompa e circunstância. Fria. Impessoal. Rasa. Pouco para o tudo que você imaginava.

Onde? Como, então?

Tão logo o acaso – amigo ingrato, interesseiro – resolver estar do seu lado. Quando ele decidir materializar o encontro involuntário de dois que têm dialogado na ausência absoluta da comunicação.

Talvez ele te prenda. Te surpreenda.

Te decepcione pela mudez do que disser.

Talvez você não deva questioná-lo. Interpelá-lo.

Não faça perguntas. Talvez não haja respostas. Nem propostas.

Façam suas apostas.

Talvez vocês briguem. Discutam, cegos de ouvidos.

Deve escutá-lo?

Talvez…

Cuidado: ele pode não ter para dizer o que amenizaria sua angústia…. Sua inquietude…

Talvez você deva apenas senti-lo. Interpretá-lo. Adivinhá-lo. Em suposições. Em entrelinhas. Em silêncios. Ausências. Atitudes.

Instintivamente. Lentamente. Eternamente.

Ou esquecê-lo. Abstraí-lo da sua órbita.

Deixá-lo explodir como mais um corpo celeste qualquer.