Mais nuas que sem roupa

Não sei como a cabeça das pessoas funciona… Como elas armazenam memórias, como essas memórias se destilam em pensamentos ordenados – se é possível que eles existam dessa forma… –, como se traduzem em sentires e gestos… Desconfio da capacidade de organização da mente, da sua forma conturbada e difusa de diluir momentos em lembranças, de converter palavras em intenções, olhares em insinuações… Tenho severas dúvidas quanto à neutralidade da razão em meio a um coração que pulsa desejos, manifesta, mesmo que inconscientemente, vontades, interpreta, ora equivocado, acontecimentos… Às vezes acho que penso demais… E pela constância da ação, o que me assalta a mente reverbera e ecoa dentro de mim, percorre todas as partes do meu corpo… Vaga primeiro pelas zonas do cérebro, em busca de comprovações, esclarecimentos… depois, liberto da razão, cai na corrente sanguínea, segue dos pés à cabeça… Ajuda o sangue a fluir mais rápido, mais lento, mais pausado… Influencia na sua espessura, cor, gosto… Circula pelos órgãos, pela derme… Para no peito… Provoca calafrios…

Dando conforto ou desalento, relaxamento ou contração, vibra, acalenta, fere… Perfura, recompõe, distorce, reorganiza… Me assalta nos momentos mais inconvenientes, para na garganta… Engasga, sai num cuspe, num desabafo… Dissolve em contato com o ar, se desfaz, emudece… Os fatos, sufocados pela passagem do tempo, renascem em nós… Perturbam o sono, vêm em forma de sonhos, pesadelos, solavancos, sustos… Demoramos para digeri-los…os absorvemos no primeiro gole…

Falar sobre o que a mente nos sussurra em momentos de distração ao longo do dia não é tarefa simples… Mediadas pelo tempo, as memórias são pobres em descrições, mas, construídas sobre a interrupção cronológica dos fatos, suscitam à reflexão… Tátil, ela deixa a desejar em detalhamento, mas procura interpretar o significado das ações e esclarecer o que no calor do momento ficara sem explicações, respostas, porquês. Ela é fabricada no encontro das falhas da memória com as suposições da análise.

Ao rebobinar encontros, conversas, intenções, olhares e atitudes, percebo que já vi as pessoas muito mais nuas do que sem roupa. Numa nudez menos superficial que a terrena… Porque desnuda-se coração e alma com muito mais dificuldade que o corpo.

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4 pensamentos sobre “Mais nuas que sem roupa

  1. querida irmã: te desejo sorte e sucesso nessa sua empreitada! parabéns pela coragem de escrever sem olhar a quem. lembre-se: a ousadia é sempre recompensada com alegria.
    beijo de um irmão muito orgulhoso,
    fran

  2. Ameiii Lu!!! Parabéns, não só pela ideia maravilhosa, mas também pelos textos que são mais do que incríveis! Tenho certeza que já é sucesso garantido! Vou estar torcendo sempre! Mil beijos

  3. Muita boa visão! Olhar através do que não se ver não é fácil… Mas você conseguiu, é surpreendente alguém com tamanho ideal de palavras e visões cegas numa sociedade onde o padrão é quem ganha e o incomum é cortado, não existe mais mulheres assim… É raro. Ta de parabéns! Bem vinda ao mundo da escrita!

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