Uma mulher comme il faut

Mesmo somando 53% da população do Rio, o bando de nádegas, bustos e madeixas ao vento não parecem me convencer das estatísticas… Onde estão, de fato, as mulheres?
Mais uma vez os números impressionam e me chocam: a produção de moda carioca nunca alcançou cifras iguais às do primeiro trimestre do ano, superando até São Paulo… As academias, todo tipo de treinamento que prometa um bumbum mais duro e uma barriga mais seca e as clínicas de nutrição jamais contabilizaram tantos clientes e adeptos… Os blogs e revistas de moda e bem estar são fenômenos de acesso e leitura…
Não me excluo do time de mulheres vaidosas – afinal, acredito que a vaidade, apesar de pecado capital, deve ser uma virtude feminina -, também hei de querer ser magra e definida – apesar de ter encontrado na liberação de endorfina uma paz semelhante à da transformação de pensamentos em palavras… – ! E que mulher não adora uma roupa nova, uma tarde de compras? Não é pra ninguém deixar de fazer as unhas ou se depilar, pelo amor de Deus!
O que me intriga é a falta de brilho nos olhos de quem quer realizar um sonho, dessas mulheres… Não tenho visto por aí nenhuma delas gritar no meio da rua seu amor… Onde foram parar as cartas, sim, aqueles pedaços de papel escritos a mão que só o remetente lê? As grandes demonstrações de afeto se dão através de uma fonte default para uma centena de ninguéns, na tentativa de impressionar meia dúzia de gatos pingados… E ainda tenho que ler de uma formadora de opinião – não a minha, naturalmente, mas talvez a de alguém – que esse negócio de romantismo está ultrapassado, que abrir a porta do carro é coisa do passado e flores são o pior presente que alguém pode receber… Não é mera coincidência que o amor líquido tenha se tornado o mais comum dos amores entre os sexos opostos…
Sem perder as esperanças, vislumbro algumas representantes da espécie feminina-puro-sangue…
Senhoras parciais do seu destino, elas vagam pela selva urbana que é a vida, travestidas de gente… Mas são leoas…
Se desequilibram, mas não caem; mesmo quando a alma adoece e sangram por dentro, a derme, revestida de carne viva, se conserva lisa e macia. O sorriso freqüente e a meiguice dos olhos mascaram o pranto lento da madrugada…
Não são indiferentes – pelo contrário! Amam e odeiam loucamente, verdadeiramente, vorazmente, mas com elegância. Uma mulher de verdade trava guerras silenciosas, uma Gandhi nos conflitos… Não deixa, no entanto, de lutar. Ela é mestre das artes marciais. Num caratê de palavras e atitudes, ela acumula suas vitórias, aceitando também as derrotas.
Ela sabe melhor que ninguém ser centrada. Ela sabe, contudo, contrabalançar esse equilíbrio com surtos de loucura. Ela é emocionalmente estável e aprendeu a descarregar seus desalentos e frustrações sem comprometer relações ou envolver pessoas. Cética, tem consciência de que ser uma opção não é uma opção…
Ela celebra os dias de sol, mas enxerga a poesia da chuva… Sábia e sensata, ela sabe que, para ser feliz, também precisa sentir dor.
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