Uma manhã qualquer

Com o corpo cansado, mas a mente insustentavelmente leve da corrida, sentei à mesa para tomar mais um café, de mais um dia. Apesar das ideias arejadas, a barriga se contorcia de fome, na espera do pão tostado. O aroma que torturava o estômago anunciava o fim do martírio – penso, rapidamente, em quão sofrível deve ser ter fome, fome de verdade, como nos cantos remotos, e nem tão remotos, do planeta.
 
Parto um pedaço do pão. Ele se esfarela. Nem o requeijão de búfala sustenta os tomates, que caem para os lados e retardam o saciar do apetite.
 
Junto tudo com ajuda de garfo e faca e penso se não seria bom que juntassem também todos os fragmentos de sonhos perdidos, ideais falidos e desejos vencidos das pessoas. Tanta coisa fora do lugar… Tento, ao menos, juntar os cacos ao meu redor, mesmo que começando com os ingredientes do meu desjejum…
 
Atrasada, não olhei nem a primeira página do jornal e ainda preciso passar na faculdade a tempo da chamada. Saio apressada, os cabelos pingando encharcam as costas da camiseta. O celular urra, anunciando mensagens cujas palavras não tenho a certeza de querer receber, nem, tampouco, vontade de emitir em resposta. Capitulo. Disponho-me a encarar SMSs, WhatsApps, emails, notificações de Facebook, Instagram, Twitter e Quora. Canso-me só em fazer a enumeração… Reflito: as tecnologias facilitaram tanto a comunicação que a banalizaram, vulgarizaram, perverteram. Os bombardeios simbólicos da vida moderníssima acabam, de forma lenta e gradual, por bombardear-nos de fato, pouco a pouco, a cada dia.
 
Entro no carro – o diesel na reserva -, e saio, já 15 minutos atrasada. E se fossem os dias mais longos, conforme nosso senso de temporalidade se esvai e se vai? O questionamento é mais um desejo inverossímil.
 
O sol reflete no vidro, num ângulo perfeito para atingir os olhos e me cegar por instantes. Há momentos em que precisamos perder a visão para enxergar com nitidez o que não cabe aos olhos ver…Vasculho o porta-luvas em busca dos óculos escuros – esquecidos na bolsa do dia anterior. Resta-me a entrega à falta de clareza da claridade.
 
Dirijo distraída, pensando no desenrolar do dia. Ao trocar de pista, aérea… Colapso. E dessa vez, não apenas de sentimentos, perspectivas, planos… Colapso físico, colisão, baque, batida. Lamentei a desatenção e o infortúnio e encostei à frente para ouvir berros e xingamentos machistas sobre a inabilidade feminina de conduzir. O vidro do carro prata – que nem reparei a marca, o modelo, não sequer pensei em anotar a placa – desceu lentamente, revelando um rosto avermelhado sob óculos escuros redondos, donos do fio de voz que saía com dificuldade. Preferi infinitas vezes os insultos de um homem grosseiro àquele choro pausado, desolado, inconformado que, vez ou outra, conseguia articular alguma palavra. Ela anotou meu nome e telefone, borrando o papel numa aquarela involuntária de tinta e lágrima… A voz também me sumiu. Balbuciei pedidos de desculpas, enquanto desejava confortá-la e dizer que tudo ia ficar bem, que o acidente – o desdobramento perfeito de seu irônico destino – não deveria abatê-la. Não é uma má vida, tive vontade de dizer a ela, apenas um mau dia…
 
Voltei para o carro e só reparei nos estragos no dia seguinte.
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3 pensamentos sobre “Uma manhã qualquer

  1. Até palavras sobre um colapso, sobre os desmoronamentos nossos de cada dia -do pão, do coração, do tempo- ficam lindo sob os olhos certos. Com ou sem óculos escuros.
    Que nossa comunicação não se torne banal.
    beijos da amiga,

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