Colocaram Mentos na nossa Coca-Cola

Hoje não sei sobre o que escrever.

O desafio da página em branco é um mal que todos aqueles que escrevem
enfrentam. Ela nos assusta um pouco. Ela nos impõe expectativas — as
primeiras palavras que pusermos na folha devem ser boas, pensamos, devem
justificar a violação, honrar a virgindade da página branca.

Mas não venho aqui hoje falar da falta de inspirações e conflitos
necessários para algum tipo de narrativa fluir. Não. É justamente o
contrário.

O que fazer quando a mente fervilha de ideias, pontos de vista, observações?
Como agir quando a história acontece, ali, diante do seu nariz? Quando você
percebe que ajudou a escrever o novo conteúdo que vai constar nos livros da
história que seu filho vai estudar?

Eu gostaria de enaltecer os que se organizaram nas redes sociais, os que
deram a cara à tapa, os que sofreram agressões policiais por lutarem com a voz.
Me orgulho dos que cansaram das falcatruas da máquina do Estado e abriram a
janela para urrar o que lhes enfurece, envergonha, oprime, desrespeita. Num
dos bordões dessa revolução, que começou pelo aumento das passagens de
ônibus, mas evoluiu para um protesto contra a impunidade, violência e
inflação e por melhorias e investimentos em educação e saúde, “não são vinte
centavos”. É muito maior, e melhor, que isso.

Nós, a juventude, soltamos o grito entalado pelo escândalo do Mensalão, pelo
superfaturamento de obras, pelo desvio de verbas públicas, pela falta de
qualidade da educação e da saúde, por todos os absurdos que vemos com
frequência no país do samba, do futebol e da corrupção. Cuspimos a
indignação do descaso das autoridades com os problemas econômicos que o país
enfrenta. Reagimos ao pingo que transbordou o copo, a lascada que quebrou de
vez a louça. O aumento injustificável de um serviço pífio ferveu o sangue de
vez.

Você não sabe a força que tem até precisar dela. E foi isso que aconteceu.
Mesmo exauridos por demorar 3 horas ou mais para chegar ao trabalho todos os
dias, os insatisfeitos com a má qualidade do serviço do transporte público e demais doenças que
têm se mostrado crônicas no nosso país – roubalheira é apenas uma delas -,
venceram o cansaço para protestar.

Mas os protagonistas das avenidas foram os jovens.

Colocaram Mentos na nossa Coca-Cola.

A geração Y, dos alienados ou do que você quiser chamar, saiu da zona de
conforto e olhou além do próprio umbigo, da própria celulite e dos próprios
bíceps. Sem nenhuma passividade, usamos os telefones, que não largamos de
jeito nenhum, para nos organizar e mostrar o que a TV não cobriu.

A coragem dos que foram pacificamente às ruas, no entanto, não pode se
deixar macular pelo vandalismo de alguns. Aqueles que depredaram prédios
históricos e invadiram instituições não representaram os comprometidos com a
causa, nem irão manchar a beleza da luta branda dos manifestantes.

Bom, é nisso que dá não oferecer educação de qualidade aos alvoroçados
filhos da pátria, autoridades… Pensem nisso da próxima vez.

O Brasil enfrenta um momento delicado em sua história. A inflação
desgovernada pesa no bolso, faltam lideranças políticas e o PT já ficou
tempo demais no poder. Que os protestos não percam a finalidade e o tom de
insatisfação. Que não haja mais violência. Que realmente provoquem mudanças.

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3 pensamentos sobre “Colocaram Mentos na nossa Coca-Cola

  1. Parabens pela visao realista! Mas creia que veras muito mais e o motivo de orgulho so vai aumentar, eu acordei com esse gigante e to vendo que o povo brasileiro quer de novo fazer direito mas se puder, vai pra rua tambem voce vai ver mais e vai sentir que ser brasileiro nao é so estarmos aqui, é estarmos la tambem! O teatro municipal ontem tava lindo! Desculpa o transtorno de novo… Uma otima semana, Luiza.

  2. De nada. Fez muito bem, Luiza. Tava lindo apesar de uns imprevistos causados pelos vandalos e policiais… Mas o que importa é sempre o objetivo e finalidade da maioria, que querem uma mudança ja.

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