O que sentiu quando deixou de sentir

Sentimos, inebriados, o chocolate derretendo na boca. O banho de mar num dia de verão. O vento nos cabelos. A barba no rosto. As palavras que sempre quisemos ouvir.

Com lágrimas nos olhos, a ferida na pele. Na alma. O anúncio da partida.

Sentimos, de estômago embrulhado, a acidez do limão. O espinho do cactos. O silêncio que nos agonia. O talvez que nos desnorteia. A aversão que nos consome. O vazio.

Sentir. A língua portuguesa é tão rica, mas só dispõe desse verbo – “ter” também poderia ser empregado, mas é ainda mais abrangente… – para expressar o que acontece conosco e dentro de nós? Não é possível que frio e alegria tenham que ser exprimidos pela mesma ação!

Sentimos cócegas assim como sentimos fome, dor… Não como sentimos raiva, medo, pena.

O que sentimos na hora do desastre, da solidão, do amor, não se cura com soluções imediatas. E é por esse intratável que respiramos ora ofegantes, ora em busca de ar…

.

Indignada, decidiu não sentir mais. Cansou de sentir tanto, tão intensamente. Tão constantemente.

A cabeça se recusou a continuar a registrar imagens, destrinchar sentimentos, decupar interpretações…

Quando olhou o retrato, quando se ocupou com a falta de notícias, quando vasculhou pistas, quando se exauriu em especular e buscar soluções… Desistiu.

Não pôde mais reagir, pelas exaustivas tentativas anteriores.

Não gosta de perder, mas perdeu. Saiu de cena. Fechou a porta. Foi-se.

Constatou que nem todo mundo sente de verdade.

Numa atitude suicida, arrancou o coração do peito. O último suspiro do seu sofrimento.

Mas o que sentiu quando tentou deixar de sentir acabou sendo o mesmo que sentiu para tentar sentir.

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Um pensamento sobre “O que sentiu quando deixou de sentir

  1. “Dor… Num ato impiedoso matou o amor, sentiu dor, nada alem do que restou daquele amou que nao podia mais seguir. Num golpe de misericordia o jogou num poço de esquecimento, feriu, desceu garganta abaixo como acido, corroeu, mas sobreviveu, contou a historia. Se libertou. Aprenda a amar de novo. Nunca se mato o amor por um que nao conseguiu mais te dar o que um dia te deu, amor, flor, nao sei. É tolice odiar todas as rosas porque uma te espetou.”
    Bom texto. Boa visao. Parabens.

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