Como tratar o intratável

Não combata o amor.

Não tenha medo dele.

Nem o espante com ameaças.

Não o afaste. Se amedrontado e inseguro, ele se vai. Ou nem vem. Não consegue ser inteiro. Presente de corpo e alma.

Não o mime. Não o diminua. Trate-o de igual pra igual. Mas não perca o sono se não conseguir colocá-lo em pé de igualdade. Cada um cria seu modus operandi.

Que o amor seja doce. Mas não enjoativo.

Não o force. Nem insista nas suas cismas. Como dizem, se você ama a flor, não a arranque. Deixa-a ser, bela. Nem que para isso precise estar longe de você.

O que não vem naturalmente não tem forças para ficar. Unilateral, é uma farsa.

Mas se vier, cuide. Não deixe escapar. Escorrer pelas mãos. Se perder nos seus descuidos. Nos seus tropeços.

Quem não sabe cuidar, não merecer ter.

Não estava pronto? Não era amor. Se preciso, ele sai de pijama e remela nos olhos. Sabe se arrumar em instantes para o encontro de sua vida. Intuitivo, ele também é sábio.

Mas trate-o como uma criança. Uma criança que já aprendeu a brincar sozinha e se bastar na própria presença. Amar não é encontrar uma muleta que te ajude a caminhar. É buscar algo  que te permita ir mais longe.

Trate-o como a criança que olha sempre como se estivesse vendo pela primeira vez, apaixonada, numa autêntica fascinação. Não como quem, cansado de enxergar, já tenha os olhos opacos.

Trate-o como um cão. Que vai te confiar todo o seu amor sem que você tenha nada a oferecer em troca, apenas o seu em retribuição.

Trate-o como uma panela em fogo baixo. Numa espera paciente que só realce o sabor. Mas cuidado para não deixar queimar.

Trate-o como tratamos os mais velhos, com respeito, admiração e medo de perder.

Trate-o como um militante trata seus ideais, suas convicções. Que deixa irradiar pelo corpo e sair em forma de grito o sentimento exacerbado, sem vergonha em mostrá-lo.

Trate-o como tratamos as unhas recém pintadas. O vestido passado. A toalha emprestada. O desenho do filho. A carta escrita a mão. O trabalho impresso. As noites de sábado. A calma da madrugada. Um pássaro caído do ninho.

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6 pensamentos sobre “Como tratar o intratável

  1. Tão frágil e ao mesmo tempo tão poderoso. Tão benéfico e tão devastador. Amar é para poucos, bons e fortes. Bons, para não borrar tudo. Fortes para sobreviver aos tufões que sua existência implica.
    Lindo texto, Lu. Adorei. beijos.

  2. Luiza, estava dentro do Senado Federal em Brasília-DF no meio de uma reunião, e veio um certo CHICO e pega me computador, mandou eu digitar um site (soletrando letra por letra), e depois leu sozinho o texto que apareceu. Depois me devolveu a tela e disse: “_ Leia, é minha filha!”. E eu li. Fiquei encantando por saber que a gentileza, o sentimento e genialidade são genéticos, sim! Vou decorar e falar para a minha namorada! Vai achar que eu morri e nasci de novo!! :)) Pedro Paulo.

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