Quando foi mesmo?

Quando foi mesmo?

Em que instante nossa brincadeira perdeu o tom? Em que gole exageramos na dose?

Depois de quantos raios solares nossa pele trocou o bronze pela vermelhidão? Em qual linha desviamos a atenção do livro? Qual foi a cena em que caímos no sono?

Depois de quantas risadas paramos de achar graça? Depois de quantos “nãos” desistimos?

Quando foi que enjoamos da comida preferida? Que deixamos de comer Sucrilhos? Em que brecha imprecisa do tempo passamos a gostar de pistaches?

Quando foi que cansamos de brincar de boneca? Assistir desenho animado?

Que pretensão, a de apreender a eternidade. A eternidade momentânea. De capturar o instante. Desvendar em que momento se materializou a infinita temporalidade do agora.

Me diga o exato instante em que nos apaixonamos. Precise em minutos, se puder. Em que descuido da razão isso aconteceu? Foi de dia, à noite? No meio da madrugada? No poente? Na neve? No meio do mar? Na beira da calçada? Num banco da praia? Na sacada? Na mesa de um bar? Ou andando no meio da rua?

Em Paris? No Rio? Numa rua sem nome? No raio que o parta? Nos seus sonhos?

Vamos, me diga.

Foi quando nos vimos pela primeira vez? Quando te confundi de costas com meu irmão? Quando encostamos os carros no sinal? Quando eu derrubei vinho na sua camiseta? Quando nossos cães se enroscaram na coleira? Eu roubei sua mesa no restaurante? Quando nossos olhos se cruzaram naquele casamento? Nos esbarramos na ciclovia? Quando você jogou o casaco nas minhas costas? Enquanto brindávamos? No meu acesso de riso? No corar das bochechas? Quando eu gritava no Maracanã? Dançava? Ou chorava no corredor do hospital?

Quando foi que paramos de prestar atenção nas horas?

O que eu vestia? Estávamos de branco?

Chovia?

Será que você constatou enquanto me escrevia uma resposta? Enquanto lia minha mensagem, minha carta, meu email? Enquanto me lia, com olhos distraídos? Ou me decifrava, atento? Foi nas linhas curvilíneas do meu sorriso? Ou nas perpendiculares do rolar daquela lágrima?

Quando me viu do avesso?

Enquanto eu amarrava o cabelo ou você os cadarços do tênis?

Em que momento? Fotografe, congele. Guarde, tatue. Encapsule, enjaule. Eternize-o.

Ele passou.

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