O novo, ele mesmo

Acordou sem querer se olhar no espelho. Cansou de si.

Seu reflexo é doce. Mas doce como um perfume enjoativo que não aguenta sentir.

Não suporta mais o timbre da própria voz. As manias. Os gostos. Nem mesmo os prazeres.

Vai pintar os cabelos. Virar vegetariana. Mudar de emprego. Parar de beber. Fazer uma tatuagem. Yoga. Aprender russo. Começar a pintar. Comprar um porquinho da Índia, uma moto, uma prancha de surfe.

Uma passagem de ida.

Vai mudar de religião, de endereço, de namorado. De amigos?

Não, isso não…

Vai mudar de sonhos. Fazer planos de não tê-los.

Vai mudar de país. De planeta?

Mudar de nome. De pele.

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Ah, esse insaciável desejo de mudança, que todos temos…

Acontece que não nos damos conta de que não é preciso muito esforço para que elas aconteçam. As mudanças se sucedem sem serem notadas, anunciadas, escancaradas.

Sutis, elas brotam inesperadas como uma cantada na rua, um encontro no supermercado, uma mão que encontra a outra.

As que ninguém vê, nem mesmo nós, costumam ser as mais transformadoras. E acontecem no passar das horas, dos dias. Em questão de instantes.

No desenrolar da vida.

Enquanto dormimos. Conforme os pensamentos se desenvolvem. Com o que absorvemos do livro recém-terminado. Do que extraímos daquela conversa. Daquela cena. Daquela atitude.

No silêncio, na desatenção. Sem causar alarde, sem acender holofotes. No escuro mesmo. Nos entreatos da existência. Sem pressa.

Sua grandeza está justamente na sua naturalidade. No deslize da rotina. Na serena distração.

Mudar é buscar, ainda que secretamente, o novo em nós.

O novo…

Como explicar a fascinação que ele provoca? O brinquedo novo, a roupa nova, o aparelho novo…

O novo amor.

Que nos deixa aéreos. Hipnotizados. Nos rouba sorrisos repentinos.

O novo fascina enquanto exala seu cheiro. Sim, o novo tem um cheiro que é só dele. Fascina porque sai quente. É virgem. Brilha mais. Vem com etiquetas. Expectativas. Carrega uma porção de mistérios a serem desvendados.

Vagamos pela terra à sua procura…

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5 pensamentos sobre “O novo, ele mesmo

  1. Acho que esse foi seu melhor na minha opiniao… Todos sao incriveis mas esse foi com alma!
    O novo é sempre inesperado mas sempre bem vindo. Quando temos vontade das novas mudanças e novos ares a vida flui e quando se flui, se anda pra frente de repente ela te surpreende e te mostra lugares que vc nunca imaginou ir, ela te recria. Yoga, surf, tatuagem, moto, pintar, viajar sem destino eu super aconselho, dá muito certo rs Parabéns, Luiza! C’est la vie… Il faut oublier, tout peut s’oublier qui s’enfuit deja, oublier le temps des malentendus et le temps perdu.

  2. O desejo por mudança não acompanha a persepção de que temos muito menos controle do que acreditamos – ou gostaríamos de acreditar – ter. Nossas decisões não são nossas. São apenas desejos de onde queremos chegar. E longe de mim falar de destino. Acredito apenas que o universo funciona de maneira muito mais aleatória do que conseguimos entender. Tudo que acontece em nossa vida depende muito menos de nós e muito mais de tudo que está à nossa volta (por vezes mais distante ainda). Temos o desejo de controlar, de achar que temos domínio do que acontece com a gente mas cada decisão é acompanhada de tantos “e se”s… E se atravessarmos a rua na hora errada? E se atrasarmos 1 minuto, 10 minutos, 1 hora? E se chover? E se a outra pessoa, simplesmente, não quiser…

    A vontade de mudança também está ligada à uma ambição de querer mais, Uma insatisfação com o presente como se o melhor estivesse sempre no futuro. Oscar Wilde já dizia que a abição é o último recurso do fracassado. Se você quer mudar é porque não consegue ver a felicidade no que já tem. Mas essa felicidade dentro, e não fora. É a maneira como se ve, como se ouve, como se sente e não um cabelo, uma roupa, uma viagem, um pais ou outro alguém além de se mesmo.

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