Como não lembrar?

No terraço do restaurante, uma senhora alemã olha para o céu aflita. Seus olhos perseguem, numa inquietude que não pode disfarçar, um avião. O barulho já praticamente inaudível da máquina a ensurdece. Os olhos quase transparentes são tomados pela escuridão do medo. As palavras que articula saem sem lógica. Os pensamentos se anulam. Numa fração de segundos, ela se desconcerta. As lembranças pesam sobre seu pouco peso. No silêncio do restaurante, ela ouve bombas despencarem do céu, crianças gritarem de medo, tiros de canhão destruírem casas, metralhadoras dizimarem famílias. A guerra. Uma ferida que deixou seqüelas. Uma dor que vira e mexe ainda lateja em seu inconsciente.

Lembranças.

Mesmo sessenta anos depois, a guerra a assusta em momentos de vulnerabilidade.

O barulho evoca a lembrança. Assalta a recordação. Força o pensamento que estava distante. Adormecido. Anestesiado.

Aquele que repousa clandestinamente em nós.

É o mundo exterior revolvendo o terreno da nossa alma. Uma trivialidade que mexe violentamente com nosso âmago. De formas infinitamente únicas, o que vem de fora nos afeta profundamente.

Desenterra. Reascende. Refresca. Recria. Nos faz lembrar.

Lembranças. Quem não as tem?

Um cheiro. Um barulho. Uma melodia. Uma canção. Um destino. Um nome. Um livro. Uma letra de música. Um animal. Uma paisagem. Um carro. Uma cor. Um perfume. Um sabor. Um filme. Um poeta. Uma obra de arte. Uma cidade. Um gosto. Uma excentricidade. Uma banalidade. Uma rua. Uma placa de carro. Um modelo de óculos. Um país. Uma língua. Uma comida. Uma sobremesa. Uma cor de olho. Um esporte. Uma loja. Um restaurante. Um tênis. Um formato de unha. Uma cor de bronzeado. Uma marca de roupa.

Uma maneira única de ler o jornal. De dirigir. De abrir a carteira. De coçar a cabeça. De espirrar. De rir. De mexer no cabelo. De falar francês. De bocejar. De piscar. De franzir a testa. De corar. De gaguejar. De ficar sem graça. De olhar nos olhos. De pegar na mão. De afastar o cabelo do rosto. De mover os lábios. De fazer amor. De se despedir.

Como não lembrar, quando as narinas se enchem de um aroma amanteigado, do cheiro de bolo quente da casa da avó que já partiu? Do amigo que colecionava moedas e de quem há tempos não se tem notícias, numa feira de pulgas? Da letra do ex-namorado que não mais te escreve cartas, idêntica à do sobrinho que acabou de aprender a escrever?

Lembranças.

Elas despertam os traumas mais secretos. As saudades mais profundas. As ausências mais presentes. As memórias mais bonitas.

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