No desacordar do corpo

Acordei, zonza.

No sono pesado, o despertar nunca é leve.

Tateei a mesa de cabeceira à procura de lápis e papel. O clarão da luz cegou os olhos.

E a memória.

A tentativa de exportar o sonho do universo do inconsciente para o mundo de carne e osso? Um fracasso.

Um desperdício do tempo de meditação e repouso de ossos, músculos, órgãos, veias, pensamentos.

Pensamentos.

Será que eles realmente descansam?

Quem nunca despertou num solavanco, na beirada da cama, achando que caía de um precipício? Com lágrimas nos olhos, de uma tristeza que não se sabe explicar? Confuso, até atordoado, de acontecimentos desconexos e sobrepostos que não lembramos com clareza?

Tantas sensações os sonhos despertam em nós no despertar.

E chamam isso de repouso. Talvez nossas horas mais produtivas sejam as que passamos na horizontal. A noventa graus da cabeceira. Estirados. Em desconexão com o mundo real.

A mente vara a madrugada no desacordar do corpo.

Sonhos são a fala que não ousamos emitir. O pensamento que não externamos. O sentimento que não nos permitimos expor. E às vezes nos esquivamos em sentir.

Sonho. Uma atividade psíquica que acontece durante o sono na forma de vivências e impressões ligadas intrinsecamente aos sentimentos.

Quem habita nossos sonhos geralmente mora um pouco em nós, parasita um pouco nosso coração, rouba um pouco da nossa alma.

Para os céticos, o sonho é mero subproduto da atividade cerebral.

Uns garantem que é lá que realizamos nossos desejos inconscientes reprimidos.

Outros, que eles são o lugar onde tentamos resolver o que nos incomoda.

Onde respostas nos são dadas. Questões, fomentadas. Resoluções, tomadas. Um espaço onde tudo pode acontecer.

Quase um psicólogo. Um vidente. Um padre. Um guru. Um pai-de-santo. Um bruxo. Um diabinho.

Uma bênção. Um devaneio. Um atordoamento.

A memória, no entanto, não permite que armazenemos esse enigma por mais de dez minutos. Passado esse tempo, o sonho é expulso de nós. Evapora. Se apaga. Se esconde da razão. Foge das discussões-de-relacionamento com a análise.

Um snapchat do inconsciente. Constrangedor. Surreal. Irrecuperável.

Exausta, irritada e curiosa, apaguei as luzes. Fechei os olhos. Me reacomodei confortavelmente entre lençol e edredom. Esperei, ansiosa, pela próxima aventura do “eu” que tanto desconheço…

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