Sílabas incompreensíveis

Estava imersa em pensamentos. 

Até que seu grito rompeu o silêncio. O de fora e o de dentro.

O mesmo impacto que teria o sussurro, em meio à gritaria. 

Mas o que queria dizer? 

Tanto o eco atirado ao léu quanto o sussurro preso na mente continuavam indecifráveis.

Nunca entendi aquelas palavras. 

Nem porque a voz quis se fazer presente.

Notada. 

Sonora.

Ali. Naquele momento. 

Num estalo que ninguém ouviu. 

Aquela fala fazia cócegas nos ouvidos. 

Soltava meus músculos. 

Envolvia alguma coisa dentro de mim. 

Deixava o cérebro em stand by. 

Não era grossa, nem aguda demais. 

Apenas eu a escutava naquela freqüência. De tempo. De onda. De batimento.  

A voz do amor é ouvida de maneiras diferentes. 

Pra mim, soava doce. 

Não demais. 

Tinha gosto de sorvete. 

Chocolate com pistache. 

E cheirava a bolo quente. 

Deslizava como seda pela nuca. 

Mas era volátil. 

O som que sai da boca é a transcrição de que?

Palavras podem ser a tradução exata de pensamentos do cérebro. Ou do coração.

Podem, contudo, ser dissimuladas. Se disfarçar em entonações.

Mesmo sem saber precisar a resposta, estudei o timbre. 

Testei as modulações. 

Não tapei os ouvidos.

Só que continuei sem compreender as sílabas. 

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A melhor enfermidade da terra

Numa debilidade meiga, o doente emite vozes e onomatopéias infantis.

Sofre de paralisia. O maxilar congela com os dentes à mostra.

Perde todo e qualquer senso de temporalidade. Quatro horas? Nove horas? Mas foram minutos!, garante.

Tem visões. Vê miragens. Enxerga ao menos três estrelas cadentes por noite.

Sonhos recorrentes o assaltam. Em repouso ou à luz do dia, quando a concentração o abandona e o piloto automático do inconsciente assume o controle.

Controle? Ele não tem nenhum. É um disléxico em conter impulsos. Um escancarador reprimido.

Tem insônia crônica por conta de cismas lunáticas. Colocou na cabeça que prefere ficar acordado, saboreando pedacinhos do dia.

Tem vertigem. Mas um caso peculiar. Tem medo de cair das nuvens.

Costuma estar faminto. Sedento. Insaciável. Mas curiosamente, não ganha peso. Só conserva algumas dobrinhas no abdômen.

Sofre de perda de audição. Não ouve os outros. Não ouve ninguém. Só os batimentos do coração.

Contemplativo, jura, convicto, que está bem. Que não lhe aconteceu nada.

Nada. Olha para ele. Solta uma longa gargalhada.

Quem olha diz que está louco.

Calma… Não se deve contrariá-lo.

Sim, certamente é um caso delicado.

Grave. Contra a gravidade.

Raro, raríssimo. De quando em nunca diagnosticado.

Não tem cura.  Antídoto.

Tratamento que remova o bom mal que ataca o paciente.

Vitamina C que amenize os sintomas.

Mas basta dar a ele a outra metade da sua laranja…

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Um mundo todo

Tudo que dissermos aqui deve ficar entre nós.

Promete?

As pessoas são más.

E eu tenho medo.

Quero construir segredos para colecionarmos.

O que acha?

Empilhados, eles vão formar nosso pequeno mundo.

Dois que se amam já são um mundo todo.

E nem tão pequeno assim.

Shh! Fale baixo, você pode me assustar.

Ou pior: alguém pode nos ouvir.

Não, não acenda a luz.

Gosto de ver no escuro.

Não te ver, vendo.

Ver as coisas que não vemos com os olhos.

Mas o breu dura pouco.

Logo nos acostumamos com a escuridão.

E nos vemos, entre vultos e intenções.

Tudo bem, não precisa desligar o som.

Mas não aumente.

É bom ouvir a ausência das nossas palavras.

Nessas pausas tento escutar seus pensamentos.

Pare de rir por eu estar te olhando.

Deixe-me investigar você.

Contar quantas linhas se formam na sua testa zangada.

Quantos dentes aparecem quando você ri.

O quanto a pupila dilata quando olha pra mim.

E a sobrancelha arqueia no sarcasmo.

Agora largue o telefone.

É sério!

Senão vou embora.

Juro.

E não volto.

O que ele tem que eu não tenho?

Me dê a mão.

Vamos sair daqui.

Nos extinguir da terra.

Passear pelo nosso planeta.

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O maior risco da vida

Numa epifania, descobriu que era o perigo que dava graça à vida.

Mas sempre fugiu dele. Temeu-o. E quando ele se foi, ela perdeu o norte. Seus batimentos pararam.

Precisou de um choque. De vida. De medo. De perigo.

Vai botar a vida em risco. O coração em risco. Quer ser o risco. A corda bamba. O parapente de alguém.

O próprio gatilho da arma que aponta para ela.

Mais que pular de paraquedas, mergulhar com tubarões brancos, andar descalça em terra de escorpiões, vai varar o mundo procurando pelo frio na barriga. O que acelera o coração.

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Como viver, senão, sem isso?

É mais provável que você morra num acidente de carro que num pulo de bungee jump.

Entediado pela comodidade que enlouquecido pela paixão.

Achando que não era pra ser porque nunca tentou, não porque deu errado.

Irresponsabilidade?

Irresponsável, mesmo, é não sentir, ofegante, o sangue percorrer as veias como o corredor numa prova de cem metros rasos.

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Não precisa dar a ela um leão indomado. Nem levá-la para andar num carro de corrida.

Leve-a para um lugar claro o suficiente para poder enxergar através dela.

Tire seu chão para ver onde se apóia.

Deixe-a por os pés na areia. Sentir a vida nas rajadas de vento em sua face.

Pelos olhos que miram os seus.

Enxergue o que sente. Fique aflito para desvendar o que é.

Guarde os disfarces.

Desnude-se. Desarme-se. Tire todas as camadas que envolvem o sentimento. Só assim poderá capturar sua essência.

Sentir o que sentem.

Há algo mais estimulante que isso?

Talvez seja o maior risco da vida.

A força da fragilidade

Ela se encolheu de frio. Ou de medo? Era receio.

Emudeceu os lábios. Umedeceu os olhos.

Nunca esteve tão linda. Aquela tristeza a enfeitava. A serenidade era atraente.

Dava vontade de beijar a boca salgada pelas lágrimas. Trazer junto ao peito o dorso contraído. Esquentar as mãos geladas.

Sua tensão ia embora com os nós dos cabelos desfeitos pelas minhas mãos.

Ela sorria, aflita, brincando de dizer verdades.

Se aconchegava, desajeitada, nas incertezas. Respirava minhas promessas. Se apoiava em expectativas.

Mas os fatos a derrubavam.

Ela temia a verdade. Mas sonhava em possui-la. E o que faria com ela?

Quando se desequilibrava, derrubava um pouco da alma que transbordava.

Ela era vulnerável.

Não, não era fraqueza. Tinha algo de encantadoramente suscetível naquela menina.

As porcelanas mais valiosas são as mais frágeis. Os mais saborosos suflês são os mais suaves. Os pedidos mais bem atendidos são os mais sutis.

Esmeraldas são preciosas. Mas tão delicadas…  Quero tê-las, mesmo sabendo que podem quebrar. Sei do risco e o desejo parece aumentar.

A vida é tão bela por ser tão frágil.

A fragilidade é forte, no fim das contas.

Ela instiga um instinto de cuidar. Uma vontade de amar. Chamar de meu.

Fecho a porta para o vento não dobrar as flores que ela trouxe.

Chagall

Deve ser assim…

Estou leve. Apesar do churrasco. Do chocolate. Da torta. Do vinho.

Leve.

Poderia flutuar.

Abaixo as guardas.

Me flagro rindo. Não consigo parar.

Não me contaram piada alguma. Ninguém levou um escorregão risível no meio da rua na minha frente.

Mas rio. O riso é largo, farto, inesgotável. Ele se desfaz num sorriso. Os músculos do rosto não conseguem entrar em descontração. Nem querem. Os olhos semi-cerrados nunca emitiram tanta luz.

Passo o dia envolta nessa aura invisível. Minha alegria privada. Que ninguém sabe que existe. Não desconfia do porquê.

Não há alarde nessa felicidade mansa.

Pra que holofotes? Confetes? Barulho?

Experimente estar feliz… Talvez seja a maior ofensa que você pode fazer a alguém. Será que o riso que nos escapa incomoda?

A felicidade do outro parece ser algo difícil de suportar.

É por isso que meu contentamento é secreto… Desajuizado. Autêntico. Quietinho… Meu.

Tenho medo de deixar o mundo conhecê-lo…

Mesmo que seja forte, é tão delicado que pode facilmente se quebrar. Ser quebrado.

Quebra-se com tanta facilidade e despreocupação o que não é nosso…

Felicidade deve ser isso, no fim das contas. Tão absoluta que não precisa ser escancarada. Tão grande que não cabe em palavras. Tão polissêmica que língua alguma consegue traduzi-la.

Por isso paro por aqui.

Já falei demais.

Não sei se vou dormir hoje.

Sabe quando você retarda ao máximo o escovar dos dentes depois do tiramisú?

Que pecado abandonar o sabor, se despedir da doçura que embriaga o paladar.

Também não quero cair no sono e deixar de sentir esse gosto de felicidade plena, que a alma saboreia tão satisfeita…

Deve ser assim

 

 

 

 

 

 

A lágrima mal contida

Depois de repousar o garfo no prato, encontro um olhar perdido. Desolado. Cheio de nada. Sentado na mesa à frente, seu rosto se contorce de dor. Ninguém o nota. Traumas da vida escorrem pelos olhos. Apesar de leves, aquelas lágrimas pesam uma tonelada.

A doçura da framboesa abandona o paladar.

Aquela alma chove. Está tempestuosa.

Ele não consegue conter a lágrima. Não agüenta. Não cabe no peito.

Chora publicamente. À luz do dia. No meio do café. Com o jornal no colo. A torta no prato. O garfo no ar.

Está sozinho. A solidão lhe é má companhia.

Como é possível que não se consiga ver a tristeza até que ela se externe? Pinte-se de transparente e esperneie, muda? Invada as bochechas e desemboque nos lábios?

As lágrimas lhe roubam, devagar, a vida.

Elas são dor líquida. Veneno transparente. Elixir da morte.

Imagino o que o assombra. Romântica, penso logo num amor que partiu. Pelas curvas do destino. Pelas vias de Deus. Pelos desencontros da vida.

O que mais poderia ser? O que dói tanto?

A morte dói. O fracasso dói. A vergonha dói. A traição dói. A decepção dói. A dor dói.

Mas será que tanto?

Pedi a conta. Dispensei o café. De amargas bastaram aquelas lágrimas.

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