As uvas passas da vida

Sei que gosto não se discute. Por isso peço desculpas aos amantes de uva-passa. Não leiam a partir desse ponto.

Eu as detesto.

São raras as surpresas mais desagradáveis que a de encontrá-las na fatia partida e misturada ao sorvete de creme da torta de maçã. Na colherada de granola já lambuzada de mel. No salpicão de frango. No saquinho de petiscos sortidos.

E abocanhar um biscoito cheio delas, achando que eram gotas de chocolate? Um trauma e tanto. Por que cismam em usá-las para poluir o pão? O bolo de banana? O panetone? O biscoitinho do café?

A vida também é cheia de uvas passas disfarçadas.
Ou, para ser mais democrática: amêndoas, jilós, beterrabas, cebolas, raspas de limão, dentes de alho, cravos, berinjelas, pimentões e aliccis que causam repulsa ou estranhamento ao paladar.

Ingredientes pouco bem vindos. Que atrapalham o sabor. Detalhes incômodos, nuanças tenebrosas. Que agridem os olhos, ouvidos. Partem o coração. Cortam o clima. Nos deixam com o pé atrás…

A mulher parecia a Brigitte Bardot, mas tinha uma voz aguda de causar arrepios. O cara abria a porta do carro pra você, mas só sabia falar de si. O emprego era o que você sempre sonhou, mas a uma hora e meia de casa. O filme tinha tudo para se tornar seu favorito, mas no final resolvem matar o protagonista. A liquidação era de 70%, mas não tinha nada do seu tamanho. Você resolveu viajar no verão, mas pegou chuva todos os dias. Os morangos estavam lindos, mas não eram doces. As flores eram de um azul que você nunca tinha visto, mas artificialmente tingidas. Ele dizia que te amava, mas não conseguia se desvencilhar da outra…

Tudo estava tão certo…. Até o detalhe fatal. A pedrinha no sapato. O azedume que cortava o doce antes de descer pela goela.

O “mas” que estraga tudo.

Estraga?

O que fazer diante das imperfeições que se fazem presentes naquilo que tanto queremos?

Levar ou não levar o vestido que vestiu tão bem… em amarelo? Comer ou não comer o risotto trufado depois de descobrir um fio de cabelo preso aos grãos? Comprar ou não comprar o apartamento no lugar que você queria, apesar da briga judicial? Viver ou não viver a paixão fulminante quando tudo parece tão fora do lugar?

Escolhas. Difíceis. É difícil decidir.

É verdade.

Ponha na balança, veja o que pesa mais. O que te deixa mais feliz…

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