A lágrima mal contida

Depois de repousar o garfo no prato, encontro um olhar perdido. Desolado. Cheio de nada. Sentado na mesa à frente, seu rosto se contorce de dor. Ninguém o nota. Traumas da vida escorrem pelos olhos. Apesar de leves, aquelas lágrimas pesam uma tonelada.

A doçura da framboesa abandona o paladar.

Aquela alma chove. Está tempestuosa.

Ele não consegue conter a lágrima. Não agüenta. Não cabe no peito.

Chora publicamente. À luz do dia. No meio do café. Com o jornal no colo. A torta no prato. O garfo no ar.

Está sozinho. A solidão lhe é má companhia.

Como é possível que não se consiga ver a tristeza até que ela se externe? Pinte-se de transparente e esperneie, muda? Invada as bochechas e desemboque nos lábios?

As lágrimas lhe roubam, devagar, a vida.

Elas são dor líquida. Veneno transparente. Elixir da morte.

Imagino o que o assombra. Romântica, penso logo num amor que partiu. Pelas curvas do destino. Pelas vias de Deus. Pelos desencontros da vida.

O que mais poderia ser? O que dói tanto?

A morte dói. O fracasso dói. A vergonha dói. A traição dói. A decepção dói. A dor dói.

Mas será que tanto?

Pedi a conta. Dispensei o café. De amargas bastaram aquelas lágrimas.

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