O sorriso, seu esconderijo

Não sabia o que falar, mas os lábios arriscaram um movimento.

Acobertado pelos dentes, ansiosos para aparecer. E pelos olhos que se semi-cerraram.

A língua, preguiçosa, repousou calmamente no vácuo de palavras. Enquanto os pensamentos, inquietos, se frustavam. Tiveram que se contentar em ser ignorados. Fingir que não existiam.

Não que ela não tivesse muito a dizer.

Ou que seu cérebro estivesse em repouso.

Pelo contrário. Era o auge de suas atividades, mas por isso mesmo, ele escolheu fantasiá-la de sorriso. Receoso, não queria expô-la. Deixá-la nua no ermo quando estava a salvo no caloroso teatro do maxilar.

Na mudez animada, ela se protegia. Suspendia os mistérios que tentava desvendar em pistas fugazes.

Mas também se afogava em questionamentos. Quase foi sufocada pelo silêncio.

breath

Só que ela tinha medo de sentir dor.

E verbalizar um pensamento é dar-lhe à luz. Colocá-lo no mundo. Indefeso e sem anticorpos.

Uma vez nos seus braços, não sabia se conseguiria cuidar, sozinha, das reflexões materializadas. Vivas. Pungentes.

Era tanto para perguntar… Para revelar… Para descobrir…

Que não quis parir as dúvidas.

Resolveu ficar transparentemente embaçada, numa clareza um pouco obscura.

Prendendo a respiração. Destratando a consciência.

Dominava a artimanha do riso e mascarava como ninguém a dor.

Então apertou os dentes. Conteve as lágrimas. Permaneceu calada.

Abortou.

 

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