Até o mergulho no mar

Onde começa o eu que não é você? Nossos princípios e fins não eram bem delimitados. Há tanto você em mim, que poderíamos poupar um corpo. Mas, por ordem da natureza, só nos resta ser dois. Reinamos em terras longínquas estando a menos de um palmo de distância. A fusão parece assustadora. Até o mergulho no mar. Na imensidão maleável, a única fronteira é o céu. Além de divisas, o mar também não tem lei. Nele, nossos reinos se dissolvem num império maior que o de Alexandre. Te convido para entrar: você parece ter medo. Mas só não suporta a água gelada. Te peço a mão, e você me olha com desconfiança – de mim ou do mar? A onda se estatela na areia, só que você não é onda, nem areia. Graças a Deus. Você quer ter a inocência do cachorro que, quando nada, desconhece a fúria do mar – e mesmo que conheça, ruge de volta para ele. Não, você quer ter é a sua coragem. Você quer como quem precisa de ar. À sua frente, caminho flutuante para o desconhecido, mas se fosse em sua direção, também iria de encontro a ele. Como é possível conquistar o que não dominamos? É o que iremos descobrir. Quero possuir o que não tem dono: contra minha vontade, o mar não é nosso. Mas você já é meu. No seguinte quebrar de onda, você resolve ir ao meu encontro: não pode perder. Me perder? Nem para o cão, nem para o mar, nem para ninguém. Olhamos para o horizonte – mas ele não existe. É debilidade da nossa mente. Por que estamos assim? O mar não me responde. Você olha pra mim e o tempo nos encapsula: já não somos os mesmos. E tudo que nos pertence se mistura entre nossas gotas e lágrimas e as do mar – ele é também coleção das dos homens, vertidas em naufrágios e descobertas, em euforias e perdas. O mar mascara enigmas. Por isso, ele é mistério do mundo: como você é mistério de mim. Você no mar, o maior mistério do meu mundo. Ali, naquele momento, não podem nos tirar o mar: somos parte dele. Tentamos decifrá-lo. Submersos, não temos ar –  mas não o tínhamos desde que nos apaixonamos. Lá estávamos nós – em terra de ninguém, sem limites, sem regras, encharcados na anarquia do mar deserto. Seria a cena perfeita de um crime: mas ele não podia matar-nos. Tínhamos padecido de amor. E viveríamos para sempre.

amor no mar

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