A Deus

Hora ou outra, haveria de acontecer. Escovou os cabelos olhando pela última vez o reflexo naquela moldura. O unicórnio e a baleia nas manchas pretas do mármore estavam tristes. Encheu os olhos do verde da mata – será que os seus desbotariam? Sentiu cheiro de mar, gosto de caqui, tato de barba roçando. Os olhos de convalescente apreciavam os conterrâneos de lar comer o pão: a intimidade é uma conquista heróica, que só se perde no desacostume, no fim. Por isso ela queria começar de novo. Salvou no HD da mente o sorriso do olhar do irmão. A voz macia da mãe virou cantiga. Remexia um baú de lembranças na risada do pai. Eles gostavam demais dela: uma cacatua gradeada. Partia porque podia, queria, porque devia. Porque não cabia mais: suas asas se torciam para ficar na gaiola; não queria tê-las cortadas. Arrombava a portinhola para deslizar na liberdade. Ia explorar-se longe dali. Ainda era meio dia em sua vida: e ela não queria chá das cinco; queria tequila com sal e limão. Se não fosse garrafa de vinho a dois. Partia para descobrir o amor. O amor tem garras – não se conforma com metros quadrados; larga confinados seus potes de mimos com hora marcada e abre as asas para provar céu de brigadeiro.

 

freedom

 

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2 pensamentos sobre “A Deus

  1. O amor dá adeus a inibição. A inanição da vida. Intimidade essa perdida pelo corpo, em amar. Alma rica de sorrisos fortuitos. Paixão verdejante essa. Da persornagem. Querida adorei.

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