Tão logo, impossível

“Eu vou morrer cedo”, constatou, as mãos percorrendo o corpo ainda quente. Ela estava mal refletida no espelho que transpirava. Enrolada na toalha, segurou as clavículas com força em busca de apoio. Também de ar. Mexeu os dedos das mãos, entretida com a dança das veias recheadas: ainda estava viva. Dos seus olhos caíam lágrimas de vapor; eles eram de um pai que perdeu o filho, para sempre sem luz. Apalpou os ossos do rosto – tinha emagrecido. Era a morte lhe roubando o peso, sua carne devorada. Via o tempo passar nas cartelas de remédio que ficavam transparentes. A quentura do banheiro não era suficiente para deixar o corpo aquecido. Os cabelos que caíam levavam consigo a vaidade. Vai, idade, não se estagne. Ainda é cedo. Cedo é breve. Tão logo, impossível. Abriu a porta com esforço e sentiu pela última vez vida soprando.

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