Faltou tempo para cuidar das flores

Aquela casa tinha fisionomia de homem e alma de mulher. Ele era o corpo: a marcenaria e os aparelhos eletrônicos. Ela bombeava seu sangue e acendia as luzes. Discreta e imprescindível, era notada nos detalhes. Preenchia os vazios. Ela era os enfeites na estante e as músicas que tocavam. Era uma casa sóbria apesar das cervejas apoiadas sem descanso pelas superfícies. Tinha piso de mármore, esculturas do Calder e quadros minimalistas. Sobre a cambraia de linho do sofá não havia almofadas; sob eles, tampouco tapete. Casa calorenta como o dono que detestava mês de dezembro. A feminilidade vinha do aroma de jasmim que largava no lençol; do tato de casca de ovo das porcelanas alemãs trazidas de casa; no porta-retrato art nouveau dado de presente com a foto dos dois. Nos bilhetes a mão que ela espalhava pelos cantos da casa. Sem aquela mulher, a casa cheirava a solidão. As louças trincadas se empilhavam na pia de aço. As fotos, numa quina empoeirada da gaveta da cômoda. Os papéis soltos eram notas fiscais desbotadas. Enquanto se secava com a toalha de algodão egípcio escolhida com ela, viu as frases de batom que ela deixava no espelho quando acordava. Não tinha mais letra alguma, nem maquiagem ao lado da escova de dentes. Sua presença; uma ausência que não podia suportar. Deitado antes de dormir, a cabeça repousava inquieta sobre as penas de ganso que ela insistira para ele comprar, apesar de mais caras. Sentia falta da coberta roubada no meio da noite. Ereto na cama, tinha frio dela. Por que seus cabelos não estavam ali desgrenhados no travesseiro ao lado? No rosto de quem eles caíam agora? Era casa de homem. Desalmado. Daqueles que moram sozinhos em muitos metros quadrados, conforto e nenhum aconchego. Tinha até flor; mas de pétalas sem viço, como seus olhos sem brilho. Definhando nos vasos, eram por fim veladas na mesa de centro. Ele respirava com dificuldade. Faltou tempo para abrir as janelas de manhã. Dizer que a amava como nunca amara alguém. Demonstrar que temia perdê-la – ele, que nunca sentiu ciúmes. Surpreendê-la com um elogio desconcertante quando ela transbordasse de raiva. Olhar para ela e descobrir os contornos que tinha por dentro. Faltou tempo para cuidar das flores. Belas. E que lhe eram triviais demais. Não percebeu que o amor acontecia nos camarins da vida, não no abrir das cortinas. Era o amor, aquilo que vinha homeopaticamente nos detalhes. Quem despreza flores deve ter coração de inverno. Ele se desequilibrava porque não sabia que precisava tanto do dela para ficar de pé. 

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