O amor é mais forte que o mar

Fã de filmes de ação, se reprimia em ser vítima de romantismo. Só podia estar numa pegadinha que não conhecia antes: o amor. Que diabo de coisa era aquela, que estrangulava seu coração e dava sensação de sprint final de corrida?
Deitado ao seu lado, tinha olhos urgentes e preocupados. Buscava razões para tanta aflição. A bolsa continuava em alta. O dólar, em baixa. A escultura de Botero do leilão já estava na sala. A mesa de sinuca, com o novo forro vermelho. Até o mar estava em ordem: a ressaca era marola morna. Fora de ritmo, só o coração e o receio de não controlá-lo. “La vie en rose”, flores, declarações de amor, olhos hipnotizados: um piegas desconcertado. Tinha medo de pensar em futuro. Sabia desde menino que o amor é mais forte que o mar. Afunda o homem. Já sem ar, ele tentava vir à tona. Em vão. Como criança destemida, ela o empurrava brincando para o fundo. Não havia salva-vidas nem resgate para esse mergulho.
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Muito mais que um Porsche

O pé chapado no acelerador, o canto dos pneus era o único que precisava ouvir. Gostava do perfume de gasolina e era louco por cheiro de carro novo. Se apaixonaria por qualquer mulher que o exalasse. Agarrava o volante daquele Porsche com as duas mãos, numa mistura de tesão e amor que seus dedos não tiveram em pele de nenhuma amante. Ele gostava de velocidade, na outra vida, foi guepardo. Quem gosta de velocidade tem menos medo de morrer: faz da vida um jogo de pôker sem limite de cacife. Quem gosta de velocidade tem mais dificuldade de amar: desapegado, conta seus amores em camisinhas usadas, drinks pagos e curtidas de Instagram.
Até conhecê-la.
Naquela madrugada, não queria voltar para casa cedo. Carregado pelos amigos, foi parar num fim de festa qualquer. Não era de pegar caminhos que não conhecia bem; calculista, seguia sempre a rota que tinha planejado, sem desvios. Não acelerava sem saber onde ia pousar as rodas. Não tocava em whisky no carteado de quinta-feira. Macho alfa, era o único que seu Leão da Rodésia de estimação respeitava. E deixou todas as ex namoradas loucas.
O encontro daquela noite quente de verão, no entanto, era mais rápido que seus pensamentos. Tentou retomar a direção, mas a tinha perdido. Ela quebrou sua prepotência com o jeito debochado de tratá-lo. Teve-o de vez quando lhe fez um desafio – era dele esse papel, e invariavelmente, saía-se vencedor, como dos rachas com desconhecidos por ruas desertas. Mesmo relaxado da bebida de mais cedo, aquela presença feminina roubava as palavras que ele tinha na ponta da língua. Ela era a pimenta que ele não sabia que precisava em todos os pratos. O óleo que fazia seu motor novo outra vez. Balizava com exatidão os espaços que ele não sabia estarem vazios.
Certa manhã, acordou assustado. Tivera um sonho daqueles que parecem reais. Na fantasia de sua mente, ela se fora. Percebeu que iria só com passagem de ida à Marte para encontrá-la, mas para onde partira, não tinha como chegar. Por atalho que fosse. Do jeito que fosse. Passou a temer a morte. Quem ama, morre. Ele amava: e agora tinha agonia de que ela pudesse morrer. Pela primeira vez, prestou atenção na velocidade.
Preferia dirigir carro manual para sentir os momentos de fôlego e exaustão do motor. Melhor que sobre as rodas, contudo, era o deslizar por aquele corpo. Trocava agora o ronco dos arranques por seus sussurros esporádicos no meio da noite. O êxtase de estar a 300km/h pelo instante de possuí-la. O calor do motor pelo ar que esquentava sua nuca na rede em fim de tarde. Com a mão viril de veias saltadas, girava o volante. Com a outra, não largava da dela.
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A moça da rua

Quando ela saía de casa, os cães abanavam o rabo e os porteiros varriam a calçada. O sol vinha de onde fosse para acompanhar seus passos. A rua se enchia de dama-da-noite e o vento soprava sutil para não desfazer seus cachos. Eu ficava debruçado no portão da escola esperando ela passar.
Ela sempre punha os pés na rua àquela hora. Não ia até o sinal: os carros diminuíam para ela atravessar. E lá ia, de olhos azuis e sandália rasteira. Qual seria seu nome? Para onde ia todas as terças?
Mal tocava o sinal do recreio, eu corria na direção oposta dos que iam para a cantina em busca de outras coxas, joelhos e sonhos que meus amigos não conheciam. Nunca contei para eles o segredo dos recreios de terça. Tinha ciúmes daquela imagem, que lembrava as Barbies da minha irmã e as curvas do meu autorama. E aquele filme de uma lagoa azul que sempre passava à tarde na TV. Ela dava em mim a sensação do bungee jump que os primos de São Paulo contaram depois de voltar da Austrália. Eu queria ser aqueles ombros que equilibravam as madeixas macias. As pedras portuguesas da rua dela. Cheguei a perguntar à mamãe se não poderíamos mudar para perto da escola. Dois anos depois, a moça parou de andar sozinha. Vez ou outra, prendia os cabelos. Um dia, ocupou as mãos com uma trouxinha que se mexia. E chorava. A essa altura, eu já tinha pulado de bungee jump e não queria mais saber de autorama.

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Ela queria ser sono

Os olhos dela pesavam sob os cílios virados de curvex, mas não dormia. Nem dormiria. Não sabia dormir assim, junto dele. Seu corpo podia até ficar inerte, mas o coração não sossegava. O dele batia como pingos de chuva fraca, dando o tom da respiração dela. O barulho daquele batimento: seu som favorito.
Ela calculava seus movimentos mais para não perdê-lo de vista que para não acordá-lo: é que tinha ciúme do sono. Nunca o tinha visto tão entregue quanto naquele desacordar. Suspirou: queria ser seu sono depois de noite em claro, de copo de vinho, seu sono como de criança que não tem medo.
Ela estudava-o; aluna aplicada em véspera de prova. De olhos abertos, cuidava do sono que não era dela. De olhos abertos, tentava adivinhar que sonhos povoavam a mente que ela queria que só pensasse nela.
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Eles tinham partido

Era a última vez que batia à porta. A porta, nunca mais. Ela tinha maçaneta redonda e só abria se fosse puxada para dentro. Ante sala do divã, recepção de motel. Branca; página em branco de seus relatos, branco de seus pensamentos. Mas não lhe dava paz alguma. Quando tocava a campainha, era como se estivesse na ponta do caminho; o último toque das mãos antes de despencar do precipício.

Não era uma porta extraordinária. Apenas a que levava a ele. Seu desvio; atalho que não leva a canto algum. Perdida em agonia, não tinha se dado conta disso até aquela manhã de sol. Ela poderia precisar que horas eram, o que vestia, quantas gotas caíram de seus olhos. Realmente acreditava que era a chave que abria aquela tranca, o corpo que encaixava do outro lado do colchão. Até aquele momento, em que alguma coisa se quebrou.

Acordou mais cedo que de costume. Espreguiçou-se rindo. Logo mais estaria com ele. Esse pensamento era sua cachaça, o que repuxava os cantos da boca. Encheu-se de sabonete, de perfume. Encheu-se de expectativa para encher-se dele.

Primeiro bateu com o nó das mãos. Tentou mais uma vez. Decidiu tocar a campainha. Mas não teve resposta. Tocou de novo. Nada. Segurou por alguns segundos o botão. Silêncio inviolado. Não ouviu passos. Ele se fora. Barulho: seu coração.

Eles tinham partido.

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