Eles tinham partido

Era a última vez que batia à porta. A porta, nunca mais. Ela tinha maçaneta redonda e só abria se fosse puxada para dentro. Ante sala do divã, recepção de motel. Branca; página em branco de seus relatos, branco de seus pensamentos. Mas não lhe dava paz alguma. Quando tocava a campainha, era como se estivesse na ponta do caminho; o último toque das mãos antes de despencar do precipício.

Não era uma porta extraordinária. Apenas a que levava a ele. Seu desvio; atalho que não leva a canto algum. Perdida em agonia, não tinha se dado conta disso até aquela manhã de sol. Ela poderia precisar que horas eram, o que vestia, quantas gotas caíram de seus olhos. Realmente acreditava que era a chave que abria aquela tranca, o corpo que encaixava do outro lado do colchão. Até aquele momento, em que alguma coisa se quebrou.

Acordou mais cedo que de costume. Espreguiçou-se rindo. Logo mais estaria com ele. Esse pensamento era sua cachaça, o que repuxava os cantos da boca. Encheu-se de sabonete, de perfume. Encheu-se de expectativa para encher-se dele.

Primeiro bateu com o nó das mãos. Tentou mais uma vez. Decidiu tocar a campainha. Mas não teve resposta. Tocou de novo. Nada. Segurou por alguns segundos o botão. Silêncio inviolado. Não ouviu passos. Ele se fora. Barulho: seu coração.

Eles tinham partido.

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