A moça da rua

Quando ela saía de casa, os cães abanavam o rabo e os porteiros varriam a calçada. O sol vinha de onde fosse para acompanhar seus passos. A rua se enchia de dama-da-noite e o vento soprava sutil para não desfazer seus cachos. Eu ficava debruçado no portão da escola esperando ela passar.
Ela sempre punha os pés na rua àquela hora. Não ia até o sinal: os carros diminuíam para ela atravessar. E lá ia, de olhos azuis e sandália rasteira. Qual seria seu nome? Para onde ia todas as terças?
Mal tocava o sinal do recreio, eu corria na direção oposta dos que iam para a cantina em busca de outras coxas, joelhos e sonhos que meus amigos não conheciam. Nunca contei para eles o segredo dos recreios de terça. Tinha ciúmes daquela imagem, que lembrava as Barbies da minha irmã e as curvas do meu autorama. E aquele filme de uma lagoa azul que sempre passava à tarde na TV. Ela dava em mim a sensação do bungee jump que os primos de São Paulo contaram depois de voltar da Austrália. Eu queria ser aqueles ombros que equilibravam as madeixas macias. As pedras portuguesas da rua dela. Cheguei a perguntar à mamãe se não poderíamos mudar para perto da escola. Dois anos depois, a moça parou de andar sozinha. Vez ou outra, prendia os cabelos. Um dia, ocupou as mãos com uma trouxinha que se mexia. E chorava. A essa altura, eu já tinha pulado de bungee jump e não queria mais saber de autorama.

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