Muito mais que um Porsche

O pé chapado no acelerador, o canto dos pneus era o único que precisava ouvir. Gostava do perfume de gasolina e era louco por cheiro de carro novo. Se apaixonaria por qualquer mulher que o exalasse. Agarrava o volante daquele Porsche com as duas mãos, numa mistura de tesão e amor que seus dedos não tiveram em pele de nenhuma amante. Ele gostava de velocidade, na outra vida, foi guepardo. Quem gosta de velocidade tem menos medo de morrer: faz da vida um jogo de pôker sem limite de cacife. Quem gosta de velocidade tem mais dificuldade de amar: desapegado, conta seus amores em camisinhas usadas, drinks pagos e curtidas de Instagram.
Até conhecê-la.
Naquela madrugada, não queria voltar para casa cedo. Carregado pelos amigos, foi parar num fim de festa qualquer. Não era de pegar caminhos que não conhecia bem; calculista, seguia sempre a rota que tinha planejado, sem desvios. Não acelerava sem saber onde ia pousar as rodas. Não tocava em whisky no carteado de quinta-feira. Macho alfa, era o único que seu Leão da Rodésia de estimação respeitava. E deixou todas as ex namoradas loucas.
O encontro daquela noite quente de verão, no entanto, era mais rápido que seus pensamentos. Tentou retomar a direção, mas a tinha perdido. Ela quebrou sua prepotência com o jeito debochado de tratá-lo. Teve-o de vez quando lhe fez um desafio – era dele esse papel, e invariavelmente, saía-se vencedor, como dos rachas com desconhecidos por ruas desertas. Mesmo relaxado da bebida de mais cedo, aquela presença feminina roubava as palavras que ele tinha na ponta da língua. Ela era a pimenta que ele não sabia que precisava em todos os pratos. O óleo que fazia seu motor novo outra vez. Balizava com exatidão os espaços que ele não sabia estarem vazios.
Certa manhã, acordou assustado. Tivera um sonho daqueles que parecem reais. Na fantasia de sua mente, ela se fora. Percebeu que iria só com passagem de ida à Marte para encontrá-la, mas para onde partira, não tinha como chegar. Por atalho que fosse. Do jeito que fosse. Passou a temer a morte. Quem ama, morre. Ele amava: e agora tinha agonia de que ela pudesse morrer. Pela primeira vez, prestou atenção na velocidade.
Preferia dirigir carro manual para sentir os momentos de fôlego e exaustão do motor. Melhor que sobre as rodas, contudo, era o deslizar por aquele corpo. Trocava agora o ronco dos arranques por seus sussurros esporádicos no meio da noite. O êxtase de estar a 300km/h pelo instante de possuí-la. O calor do motor pelo ar que esquentava sua nuca na rede em fim de tarde. Com a mão viril de veias saltadas, girava o volante. Com a outra, não largava da dela.
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