Um perfume que não conseguimos fotografar

Cheguei a imaginar a impossibilidade de precisar o instante em que duas pessoas se apaixonam. Contradigo-me: ouvindo uma música às vozes de um par, mudei de ideia. Num trecho dialogado, “Alexander” revela para “Jane” que se apaixonou por ela depois da queda da janela, levando-a pro hospital, enquanto ela fumava um cigarro no banco de atrás achando que seria seu último. Que belo recorte. Foi ali, exatamente ali, no desespero, na adrenalina, com o pé no acelerador e o coração em contração. Ele a vê descabelada no espelho, atrás da neblina de fumaça, e descobre ser louco por ela. Uma verdadeira epifania de amor, orgasmo sentimental. Será que ele soube na hora? Aliás, não terá sido apenas a confirmação de uma certeza? Por que então ficou anos sem contar para ela? Alexander não tinha certeza; deve tê-la dito naquele momento. Ou sempre soube ser amor, ou nunca saberá. Essa exatidão é formalidade. Vou contradizer a contradição: o amor será sempre um perfume que não conseguimos fotografar.

Unknown

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Não será um pouco do supérfluo essencial?

Com duas meias e uma série de bugigangas nas mãos, estou na fila para legitimar minhas posses. Olho para o lado e enxergo um menino que dissoa daquele templo de luzes, cores, barulhos. Lar de trivialidades sem as quais a vida ainda é possível. Envergonhados, seus olhos são fogo lutando para sobreviver ao vento.
Ele é leão fora do habitat. Consumidores e seguranças o olham desconfiados. Gesticula tímido; não pertence àquele lugar. Em vez de abrir uma carteira de quatro dígitos, tira do bolso seis notas amassadas e uma moeda para realizar o sonho que cabe na mão. Seu short surrado está mais leve; não tanto quanto a alma satisfeita. Eu lhe sorrio.
É o mínimo que posso fazer. Imagino, sem querer, a falta que essas notas fariam. Como foi que as conseguiu? Não penso mal do menino; o vejo varando sinais fechados, colocando e tirando saquinhos de amendoim dos espelhos dos carros. Nunca assaltou ninguém e até já foi motivo de risada dos amigos. Seu pai deve ter sido traficante e morrido num tiroteio com a polícia; razão pela qual nunca encostou em drogas. Prefere realizar alguns prazeres materiais de vez em quando; é humano. Ele tem mãos ágeis; talvez faça acrobacias ou trabalhe meio período numa oficina. Aposto que é bom no futebol e já sonhou em jogar na Europa. Deve estar ajudando a mãe solteira, grávida do irmão acidental. À noite frequenta a escola. Não tem muito tempo; sonha nos intervalos, como agora.
“Senhora?”, o vendedor me chama. Pousando meus itens no caixa, ouço os dígitos na máquina do atendente e o coração ansioso do menino. Ele espera a vendedora colocar sua mochila na sacola. Ela é terna: seu olhar o abraça enquanto desdobra a embalagem de papel com cuidado. “É das minhas”, respiro aliviada. Faz questão de fazer um embrulho em seda. Não conta o dinheiro; inteiraria com o dela se estivesse faltando.Também teria financiado aquela felicidade e era testemunha da máxima que dizem ser mentira: “dinheiro não compra felicidade”. Às vezes, compra sim: eu acabara de ver. Mesmo que fruto de um prazer momentâneo, aquele sorriso era legítimo. O produto mais barato da loja, uma riqueza para ele. A vendedora entrega-lhe a sacola com delicadeza. Ele a recebe, como se pudesse quebrar. Ele já teve sonhos partidos demais. Num desconforto aparente, vai em direção à rua de cabeça baixa, como se tivesse feito algo de errado. Meu coração aperta e a vontade de ir atrás dele se dissolve no ar com as palavras que gostaria de ter-lhe dito – nem sei quais. “Ele vem aqui de vez em quando. Já levou boné, tênis, hoje levou bolsa”, ouço a vendedora falar para si enquanto passo o cartão de crédito. Que mesmo as felicidades efêmeras sejam duradouras.
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