Coleção de tesouros

Hoje não vou contar uma estória. Hoje não. Passo a mão sobre a cabeça e sinto maduras as ideias enfileiradas. Meus dedos as tocam como homem descobrindo corpo de mulher pela primeira vez. Fininhas, elas são nuvens; herdadas dos meus pensamentos de tempestade. Sou chuva, sempre gostei de chuva. Sem mim não há arco-íris.
Fico quietinha porque não quero me desfazer das riquezas que não pegamos com as mãos, entende? Não é egoísmo. Aposto que você nunca tocou em nuvem. Se conto uma estória, fico mais pobre: me desfaço de um sonho devaneante. Sonhos são as nuvens da mente.
Não tenho filhos, mas sou mãe de sonhos, e não conheço mãe que abra mão de um filho. Contar uma estória é de certa forma entregar ao mundo um sonho fecundado no ventre da alma. Ela passa a não ser mais só sua, como os filhos crescidos. 
Nuvens, sonhos, filhos. O que têm em comum? São todos fruto de processos: as nuvens, da atmosfera; os sonhos, da fantasia; os filhos, do amor. Sem essas três variáveis, não há estória.
Hoje vou guardá-las para mim… É que coleciono tesouros. 
 
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Dois pontos em nós

Quero congelar o dia da quase certeza do seu amor. Quase porque não sei dizê-la mesmo hoje. Estava quente, mas eu tinha frio, você me dava frio; era meu calor. Você já foi muitas coisas que eu não queria que tivesse sido: o amigo que não devolve os livros, a criança cheia de vontades. A encarnação de Napoleão ou Narciso. Você gostava de ter as coisas, não apenas a verdade.
Não era dia, nem noite quando te encontrei. Não sei se o momento existiu na terra. Sonhávamos afastados, como quem joga xadrez na internet. Você, às da minha canastra limpa; eu, o cascalho no seu tênis – sem o qual a pisada não era a mesma, você acabou descobrindo.
Na rua deserta, notei estranhamento em suas rugas. Elas te riam, mas tensionavam seus olhos. Rugas são marcas de um coração pelo lado de fora; desenho do vento na areia. Eu era aquela linha a mais, atordoamento tão reconfortante. E te fazia rir desconfiado: você contava vantagens que nada me valiam. Eu discordava das suas certezas sacramentadas. Você queria meus porquês; em vez de interrogação do mundo, eu devia ser sua exclamação.E ponto final. Aceitei ser vírgula, travessão. À frente de nós: dois pontos cheios de interjeições.

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