Dois pontos em nós

Quero congelar o dia da quase certeza do seu amor. Quase porque não sei dizê-la mesmo hoje. Estava quente, mas eu tinha frio, você me dava frio; era meu calor. Você já foi muitas coisas que eu não queria que tivesse sido: o amigo que não devolve os livros, a criança cheia de vontades. A encarnação de Napoleão ou Narciso. Você gostava de ter as coisas, não apenas a verdade.
Não era dia, nem noite quando te encontrei. Não sei se o momento existiu na terra. Sonhávamos afastados, como quem joga xadrez na internet. Você, às da minha canastra limpa; eu, o cascalho no seu tênis – sem o qual a pisada não era a mesma, você acabou descobrindo.
Na rua deserta, notei estranhamento em suas rugas. Elas te riam, mas tensionavam seus olhos. Rugas são marcas de um coração pelo lado de fora; desenho do vento na areia. Eu era aquela linha a mais, atordoamento tão reconfortante. E te fazia rir desconfiado: você contava vantagens que nada me valiam. Eu discordava das suas certezas sacramentadas. Você queria meus porquês; em vez de interrogação do mundo, eu devia ser sua exclamação.E ponto final. Aceitei ser vírgula, travessão. À frente de nós: dois pontos cheios de interjeições.

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