Desamor

Em pequena, achava que o jornal escondendo rosto de papai no café trazia as notícias do dia recém-nascido. Jornalistas; oráculos do nosso tempo, cartomantes que não falavam de amor. Eu os invejava porque conheciam o dia seguinte – talvez por isso tenha seguido a profissão. Também queria saber do tempo e da vida. E que meu pai não tirasse os olhos de mim pela manhã.
Quando descobri que o jornal não era a previsão do dia seguinte, e sim a resenha do anterior, o estômago embrulhou como quando se descobre a mentira da melhor amiga – nunca gostei de ser enganada. Jornalistas não sabiam de nada, pensei. Nem escrevem nada sobre o amor. Que pretensão, a de cobrir o cotidiano sem ao menos esbarrar no tema. O que eu ia fazer da vida agora?
Se ele era tão importante à vida das pessoas, por que não constava nas páginas? Mesmo as profissões que poderiam se ocupar do amor estudavam o que acontece quando ele falta ou é deficiente: ódio, guerra e crime parecem ser assuntos de predileção. E se houvesse amor?
Comida nutre o corpo, mas amor enche a alma.
Acho que vou virar poeta. E torcer para papai gostar dos meus versinhos.
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Risco

Sempre fui fã de rascunhos. Não tem caderno meu que não seja todo rabiscado a lápis. Apesar de setas e asteriscos, evidências de uma mente indecisa, não há letra traçada; palavra sob risco é memória inapagável de um pensamento. Desejo dando último suspiro. Band-aid em ferida que deixou marca. Por isso nunca quis lambuzar de tinta minhas páginas; precisava de tempo para processar o mundo a meu redor. Meus sentimentos eram vozes compreendidas em segunda audição.
Eu, que sempre usei lápis, tive receio da vida passada a limpo. Viver é escrita instantânea a caneta. Sem noite de distância para ter certeza. Jornal diário sem tempo para meus romances.
Mas, e se?
Como teria acontecido, podendo ser diferente? Borracha para dar lugar a nova escrita em grafite.
Tivesse gostado mais de física, não poderia ter virado cientista? Ou atleta, tivesse levado o esqui mais a sério? Teria as mesmas amigas tivesse mudado de escola como papai queria? Que línguas falaria, nascida na Europa? Seria tão apaixonada não fossem os livros de Clarice? Com quem teria passado o ano novo não tivesse confiado no estranho da festa? E se o grande amor estivesse pronto?
Direitas e esquerdas; apostas e intuições. Cruzamento de circunstância e opção. Se o que quiséramos não veio no momento certo, o risco fica na memória.
A vida; ditado em tempo real. Escrito com sangue.

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Cataploft

Cinza escuro e recém alisado: tão jovem e tão cruel. Sabia que invejava meu equilíbrio e altivez. É, eu estava mais perto do céu. E ele do inferno, quando batia o sol – tão quente que dava para fritar um ovo e queimar as almofadinhas do cão. Tínhamos um encontro na semana; ele se esticava todo para eu passar de bicicleta: platonismo unilateral. Concentrada, tentava evitá-lo, me desvencilhava dele para olhar para o alto. E no caminho para casa, tentava voar baixo num desdém inconsciente. E assim se feria ainda mais seu orgulho… Em pacto com as folhagens que não tinham sossego e os raios de sol, o asfalto se estreitou numa curva, soprou luz nos meus olhos e pediu ao verde que se afastasse. Um abre-alas para tocá-lo. E para eu deslizar ladeira abaixo.
Natural que quisesse me tocar: eu era macia, ele, todo lixa. Arma disfarçada de tapete. Caí do cavalo de duas rodas, numa trapaça dos olhos: enganaram-me os astros. Eu sentia arder a pele, numa investida bem sucedida do asfalto. Levantei-me; pouso forçado do meu voo. Eu não tinha tanto poder assim, era pássaro ferido que o céu desafiou.
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