Cataploft

Cinza escuro e recém alisado: tão jovem e tão cruel. Sabia que invejava meu equilíbrio e altivez. É, eu estava mais perto do céu. E ele do inferno, quando batia o sol – tão quente que dava para fritar um ovo e queimar as almofadinhas do cão. Tínhamos um encontro na semana; ele se esticava todo para eu passar de bicicleta: platonismo unilateral. Concentrada, tentava evitá-lo, me desvencilhava dele para olhar para o alto. E no caminho para casa, tentava voar baixo num desdém inconsciente. E assim se feria ainda mais seu orgulho… Em pacto com as folhagens que não tinham sossego e os raios de sol, o asfalto se estreitou numa curva, soprou luz nos meus olhos e pediu ao verde que se afastasse. Um abre-alas para tocá-lo. E para eu deslizar ladeira abaixo.
Natural que quisesse me tocar: eu era macia, ele, todo lixa. Arma disfarçada de tapete. Caí do cavalo de duas rodas, numa trapaça dos olhos: enganaram-me os astros. Eu sentia arder a pele, numa investida bem sucedida do asfalto. Levantei-me; pouso forçado do meu voo. Eu não tinha tanto poder assim, era pássaro ferido que o céu desafiou.
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