Risco

Sempre fui fã de rascunhos. Não tem caderno meu que não seja todo rabiscado a lápis. Apesar de setas e asteriscos, evidências de uma mente indecisa, não há letra traçada; palavra sob risco é memória inapagável de um pensamento. Desejo dando último suspiro. Band-aid em ferida que deixou marca. Por isso nunca quis lambuzar de tinta minhas páginas; precisava de tempo para processar o mundo a meu redor. Meus sentimentos eram vozes compreendidas em segunda audição.
Eu, que sempre usei lápis, tive receio da vida passada a limpo. Viver é escrita instantânea a caneta. Sem noite de distância para ter certeza. Jornal diário sem tempo para meus romances.
Mas, e se?
Como teria acontecido, podendo ser diferente? Borracha para dar lugar a nova escrita em grafite.
Tivesse gostado mais de física, não poderia ter virado cientista? Ou atleta, tivesse levado o esqui mais a sério? Teria as mesmas amigas tivesse mudado de escola como papai queria? Que línguas falaria, nascida na Europa? Seria tão apaixonada não fossem os livros de Clarice? Com quem teria passado o ano novo não tivesse confiado no estranho da festa? E se o grande amor estivesse pronto?
Direitas e esquerdas; apostas e intuições. Cruzamento de circunstância e opção. Se o que quiséramos não veio no momento certo, o risco fica na memória.
A vida; ditado em tempo real. Escrito com sangue.

love crossed

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