Botões para quê?

É domingo, é chuvoso e é longe. Outra língua, outra hora. Estou só; mas sou deserto povoado. Preciso escrever, penso. Quero conversar com alguém e posso me quebrar o galho enquanto meu mundo dorme. Vou ficar a sós até que ninguém chegue. Se não tivesse uma voz que não para de falar dentro de mim, seria como se hoje não tivesse existido.
O confinamento é programado – deve fazer bem esse recolhimento; para botar as ideias arejando sem que ninguém pergunte sobre elas, olhar como os sentimentos se comportam nas ausências. O novo se apresenta sem cerimônia, enquanto descubro acidentes geográficos em mim – acho que nenhum beco sem saída incontornável.
Ficar sozinha, tanto que dá saudade das amigas chatas, é para os corajosos, os que não se incomodam em se perder em própria companhia nem com os olhares no restaurante em mesa de apenas uma pessoa. Estar na condição de solitário é poupar a voz, rir um pouco menos e elucubrar sobre a ranhura no mármore ou a última grande decisão.
Entre os reveses, ficar sozinho dói devagarinho, despertando emoções primárias: como eu precisava de um bichinho de pelúcia para abraçar à noite! A blusa que abotoa atrás? Vai voltar limpinha, sem utilidade alguma em viagem de uma mulher só.
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Sempre gostei de azul

Eu não queria nadar; queria era voar. Voar era vertigem; sonhava em deslizar pelo azul que eu admirava da janela.
Já nadar, era tédio; foram frias e com gosto de cloro as manhãs em que mamãe me obrigava a cruzar a piscina para lá e para cá. Eu olhava os azulejos descascados e olhava o céu, liso e livre.
Estrear os maiôs na água não era desafio, era tortura. Lembro de quanto demorou para meu irmão mais novo ficar à vontade na piscina… Foi rápido: não deu tempo de trocar de cor favorita nem do cabelo chegar no meio das costas.
Eu queria planar como faziam as aves do Discovery Channel, esticar os braços para o mundo que eu não conhecia. E provar os algodões doces do céu – também era gulosa por sonhos. Ouvia, desconsolada, que devia parar com esses desejos difíceis de realizar. Eu era ainda menina, tinha a infância povoada por sonhos – sinto falta da mente livre dos tempos de franjinha.
Crianças sonham mais; fim de infância leva junto fantasias sem dono, sem pé nem cabeça. Mas nunca desisti de voar. Mesmo adulta, continuava sendo da terra dos que não crescem nunca.
Levaram-me para o meio do mar. Lá embaixo, mais vida que eu encontraria no céu inteiro. Em cada braçada, batia asas para o desconhecido e sobrevoava montanhas de areia em mergulhos rasantes. O oceano era tão grande quanto o céu e mais fácil de chegar. Mais um sonho realizado, dos que não param de brotar em mim.
A piscina da infância cabia nos meus olhos. O mar, nem nos pássaros que eu queria imitar. Céu e mar têm cor de liberdade e dos meus sonhos de pequena. Deve ser por isso que sempre gostei de azul.

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