Sede de Marina

Você não vai me ver pedindo outra coisa em restaurante que não ela, água. A falta de transparência dos refrigerantes nunca me apeteceu e os sucos eram doces demais. “A vida não é tão doce, vai ficar mal acostumada!”, dizia minha babá Marina, espécie de mãe para mim, cheia de ditados e explicações para tudo.
Não só dentro, mas em torno de mim, água sempre foi bem vinda: gelada para me despertar, friazinha em dia de calor, morna na Bahia, fervendo como remédio para os dentes tilintantes.
Ela tinha nome de mar e por mais que só tomasse Coca, Marina fez da água meu líquido favorito; devia pensar que só água combina com pureza de criança. Lembro ainda do sotaque nordestino me dizendo como era maravilhosa a água: nunca ia me parar, porque não era parede dura. “Água sempre vai aonde quer, e nada consegue se opor a ela”, me explicava. “Água é tão paciente, que fura pedra. Lembre-se disso, minha filha. Você é metade água: se não consegue passar pelo obstáculo, contorne-o, como ela faz.” Marina não tinha estudo, mas foi das pessoas mais sábias que conheci.
Com ela não tinha moleza: era bronca na certa quando eu fazia besteira. Mas quando me achava injustiçada, brigava até com meu pai. Geniosa, era mulher de fortes convicções. Marina teve dores que aprimoraram sua sensibilidade; perdeu um filho. Deve ser por isso que me tomou como sua.
Ela se foi de repente – a velhice a carregou para longe de mim. Não, ela não se despediu do mundo; foi abandonada pelo juízo. Absolveram-na de obrigações e responsabilidades; tornaram-na criança outra vez. Hoje quando lhe telefono, dou risada como ela devia fazer com minha imaginação fértil de menina. Mas sinto falta da lucidez de seus conselhos.
Semana passada, depois de falar com ela no telefone e ouvir que minha mãe tinha passado bem à noite sob seus cuidados – fantasia recorrente -, falei com sua irmã. Tinha feito calor e ela passara o dia fora. Quando chegou, disse, Marina contou-lhe que tinha passado o dia no quintal me dando banho de mangueira. Meus olhos se encheram da água que ela me ensinara a amar. Como eu tinha sede da minha Marina.
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Amor nos olhos da criança

Aquelas bolhas de sabão – maiores que as feitas por meu irmão para me divertir – eram grandes demais para nosso sopro. Elas refletiam todas as cores e estavam fora do meu alcance. Naquelas deformações transparentes, logo sumidas no ar, meus olhos se inauguravam no encanto. Talvez já tivesse me maravilhado antes, mas ali me lembro bem; depois vieram campos de flores que seguiam o sol e águas cristalinas dos atóis. Me maravilhar era tudo que eu não conhecia e não podia ter para mim. O mais gostoso em ser criança são as constantes novidades que não se esgotam; o desconhecido da vida se mostrando a nós. Fazemos descobrimentos – conhecemos pela primeira vez. O mundo se apresenta com todo seu mistério em surpresa magnética.  Adultos se despedem sem adeus da magia dos primeiros anos de vida para um mundo mais austero – não à toa, crianças riem bem mais que eles; vivem fascinações contínuas na infância. O novo, aos crescidos, já se tornou banalidade. É difícil manter o brilho no olho conforme o passar do tempo – há esperança no amor, descoberta de mundo em forma de gente. Se apaixonar é reencontrar o encanto perdido entre pipas e casas de boneca, colocar de volta as lentes com que vi as enormes bolhas voando sobre minha cabeça àquele dia. O amor é segunda infância, mas pode se tornar árido como mundo esgotado de surpresas; é o curso natural dos amores malcuidados ou tão cômodos, que sufocam o fascínio. Que os amantes nunca deixem de se descobrir: mantendo-se olhar de criança como em primeira vez, o amor nunca irá perder o encantamento.

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