Amor nos olhos da criança

Aquelas bolhas de sabão – maiores que as feitas por meu irmão para me divertir – eram grandes demais para nosso sopro. Elas refletiam todas as cores e estavam fora do meu alcance. Naquelas deformações transparentes, logo sumidas no ar, meus olhos se inauguravam no encanto. Talvez já tivesse me maravilhado antes, mas ali me lembro bem; depois vieram campos de flores que seguiam o sol e águas cristalinas dos atóis. Me maravilhar era tudo que eu não conhecia e não podia ter para mim. O mais gostoso em ser criança são as constantes novidades que não se esgotam; o desconhecido da vida se mostrando a nós. Fazemos descobrimentos – conhecemos pela primeira vez. O mundo se apresenta com todo seu mistério em surpresa magnética.  Adultos se despedem sem adeus da magia dos primeiros anos de vida para um mundo mais austero – não à toa, crianças riem bem mais que eles; vivem fascinações contínuas na infância. O novo, aos crescidos, já se tornou banalidade. É difícil manter o brilho no olho conforme o passar do tempo – há esperança no amor, descoberta de mundo em forma de gente. Se apaixonar é reencontrar o encanto perdido entre pipas e casas de boneca, colocar de volta as lentes com que vi as enormes bolhas voando sobre minha cabeça àquele dia. O amor é segunda infância, mas pode se tornar árido como mundo esgotado de surpresas; é o curso natural dos amores malcuidados ou tão cômodos, que sufocam o fascínio. Que os amantes nunca deixem de se descobrir: mantendo-se olhar de criança como em primeira vez, o amor nunca irá perder o encantamento.

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