Gêmeos

Não achei que ia sentir tanta falta dele – meu irmão, mais velho que eu, me lia no idioma confuso de mim. Ele sabia exatamente quando eu estava furiosa, não porque eu fosse óbvia, mas ele, observador atento e frequente. Meu irmão me sabia tanto, que gêmeos parecíamos. Dividíamos os descobrimentos e nos maravilhávamos diante do mundo que a nós se apresentava ora em bocadinhos, ora de supetão. Nossas barrigas doíam das gargalhadas que nos escancaravam as janelinhas da boca, fazendo barulho e provocando lágrimas. Um dia, uma tragédia: meu irmão iria para longe de mim. Por que não me levava junto? Imediatamente me senti deserta. Como não encontrá-lo sonolento na mesa de café? Com quem resenharia meu dia até o sono aparecer? Não haveria nem tempo de despedida. Se eu pudesse, faria aquela segunda não chegar nunca. Meu cúmplice partiu e me deixou sua ausência. Por que fizemos todas as viagens da infância juntos? Fiquei mal acostumada: sou inexperiente da sua solidão. Ninguém nos ensinou a independência um do outro. Sentindo minha angústia e temendo por mim, minha mãe me deu de presente o reencontro.Eu iria a Nova York no verão; contei as horas – seriam 36 ao seu lado. Começamos a planejar os roteiros: iríamos do Whitney ao MoMa a pé, passeando pelo Central Park – meu irmão já tinha visto as exposições três vezes, mas iria com prazer ao meu lado. Passaríamos o dia pelas galerias do Chelsea e ele me levaria para comer o hamburger de que tanto falara no Soho. Sabendo da minha paixão por flores, iríamos ao Flower Market do Brooklyn, para ver as enormes rosas colombianas. Ruas, cafés, museus; pretextos para vagar por esquinas do presente entre nosso passado e futuro. Saí do avião correndo, não podia desperdiçar um segundo em solo americano. O guarda da imigração ficou desconfiado de minha vinda relâmpago: “vim ver meu irmão”, respondi não cabendo em mim. Ele não se comoveu, – deve ser filho único – pensei. Já em frente à porta de meu irmão, toquei a campainha, tentando ritmá-la com as batidas de meu coração. Diante de mim, ele surgiu. Nosso abraço foi tão forte como aqueles em que comemorávamos o terceiro gol ou quarto gol do Botafogo no Maracanã, sem medo de perder – por um instante, com sensação de vitória não ameaçada, esqueci que haveria nova separação. Melhor assim: sempre detestei despedidas, muito menos de meu irmão. Aos que perguntam se valeu a pena me despencar América afora por tão pouco tempo, eu respondo: “fui ver meu irmão.” E isso basta.

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