A segunda opção

Quando foi mesmo que nos apaixonamos, meu amor? Precise em minutos, por favor. Como deixamos isso acontecer? Terá o amor nos abatido de dia ou à noite? Na fila do avião ou enrolando coleiras na calçada?
Pode ter sido na madrugada de um domingo: a Lagoa estava encoberta e não se via o Dois Irmãos. Ficamos tão curiosos com aquele estranhamento que começamos a construir nossa cumplicidade. Era o horário das garças caminhando sem pressa pela ciclovia. Encontros proibidos aconteciam. Não tínhamos hora nem devíamos ser vistos. Será que foi ali?
Ou terá sido numa quinta de março, fechando o verão? Você ligou para a namorada do seu irmão e pediu para falar comigo. Àquela noite, me levou para debaixo de uma árvore – era uma amendoeira ou uma acácia? – e me beijou como quem acaba de encontrar o ar. Respiramos aliviados.
Fomos apresentados por amigos ou saímos nos conhecendo? Foi de propósito ou sem querer? Nos achamos no acaso ou o destino nos designou?
Já não sei mais. Em que instante restou-nos apenas ser um do outro? Quero tanto lembrar. Já éramos sem saber?
Inútil refazer nossos caminhos. Fluímos com a facilidade dos que já se encontraram centenas de vezes. Não à toa dizem que os grandes amores nascem de acidentes. De segundos.
Quais foram nossas primeiras palavras? Não as escuto. Perguntas desembocaram em silêncios: os silêncios secretos entre nós. Algumas ficaram sem resposta: até quando? Por quê? Outras, tantas, vêm se criando dia após dia, teimosamente. Deve ser por isso que não dê para fotografar o momento em que nasceu nosso amor – ele é tão embebido em mistérios que nem palavras o decodificam.
Ansiosa, sempre busquei respostas. Aí vem o amor a me tirar as rédeas. Por que querer entender tudo? Chega de perguntas, você me diz, a voz rouca me seduzindo. A neblina do Dois Irmãos encobre a paisagem, mas ela está ali: é preciso vislumbrá-la por trás do que se vê – ou do que não se vê, ainda.
Rendida, acato sua sugestão. Como fazer diferente? O amor é maior que eu. Interdito minhas perguntas, tola insistência em ter o mundo nas mãos. Ou se controla o amor ou se vive o amor. Fico com a segunda opção.

foggy love

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