Agora não

As mulheres gritam e as crianças choram. Os homens seguram suas mãos em pavor mudo: nosso Boeing 777 despenca das nuvens e freia com rispidez à semelhança de uma montanha russa. Não tenho medo de avião, mas esses solavancos estão me incomodando: me tiraram do sono. Ia ser muito irônico se ele caísse agora, a caminho das férias. Talvez eu agora entenda quem tem medo de avião: o sentimento é de impotência – morrer despencando do azul nos faz sentir realmente incapazes, vidas indiscriminadas se desfazendo feito nós de cabelos por escova. Eu ainda não tive filhos nem ganhei uma TV em sorteio de supermercado. Não posso morrer nesse voo. Seria um desperdício: as profecias do horóscopo de janeiro não aconteceriam – a semana que vem ia ser de conquistas no trabalho e um amor antigo bateria à porta (ele ia ficar desolado mais uma vez!). Cento e noventa e sete emails para responder e a calça favorita para buscar no conserto. O que aconteceria com os móveis encomendados para a casa nova? Morrer logo agora, que tinha prometido ensinar a vovó Zizi a mexer no iPhone e visitar os filhos da minha madrinha? Se eu morrer nesse voo, ninguém nunca vai ler isso. Vou deixar promessas a cumprir e parcelas do cartão de crédito a pagar. Tinha planos de morar em Berlin e de me engajar na política contra toda essa impunidade. Não quero que a vida termine assim, numa batalha tão desleal: sou guerreira, quero a chance de  me defender. Aqui, em amplitude que não me cabe nos olhos, seria reles pingo de sangue em guerra que não me deixaram lutar. Gosto de vir ao céu, mas a passeio – não pretendo ficar por aqui por enquanto (será que, afinal, eu iria pro céu?): quero me ver de cabelos brancos e esperar, paciente, a hora de reencontrar meu grande amor. A vida é tão frágil que se desfalece em segundos? A morte deve ter a cor das nuvens turvas que quase nos levaram: um dia conto como é.

Agora não

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