Em falta

Sinto falta da casa em que nasci como do avô de quem herdei o nome. Das árvores onde aprendi a escalar e dos tatuís do Arpoador. Saudade dos passos graves de meu pai chegando em casa enquanto me fingia adormecida. Dos coleguinhas que mudavam de cidade, do pé de bougainville lilás de Búzios. Tenho falta de desconhecer as histórias dos meus livros favoritos e as músicas que, de tanto ouvir, enjoei. Do meu irmão no quarto ao lado e de não fazer ideia do que é ser adulto.
Quanto duram as faltas? Tem anestésico para saudade?
Meu tempo não acompanha passos de relógio. Tento sarar minhas faltas revivendo enredos e adiantando cenas de minhas tragédias e dramas.
De tanto sentir falta, acabei me tornando falta, como os desenhos que não coloria e os poeminhas carentes de última rima. Fui menina de vazios e meios sonhos. Nas incompletudes, me tornei incompleta.
Sentia vontades escondidas e medos transparentes. Eu queria ser forte, mesmo que em ruínas. Por dentro gritava, mas nunca transtornei o silêncio.
Guardava os segredos das amigas e aprendi a dar conselhos para não ter de revelar-me. Até hoje tenho cômodos nunca visitados e sentimentos em jaulas. Em menina, é claro que não confiava nem na própria sombra, sempre tão maior que minha real estatura. Se tinha dores, elas me esgotavam e depois se esgotavam em mim.
Gosto de caramujos e das flores de muitas pétalas. Me encantam as camadas da alcachofra e os vestidos de muito pano. Sem roupa, não sou mais nua que quando me desvelo. Voo feito borboleta, mas sou casulo.
Minha matéria são palavras, que uso para dizer e também para não dizer: nem sempre elas são verdade do coração. Não diria que minto; é que meus pensamentos precisam permanecer em mim: são feito as bactérias que, uma vez em contato com oxigênio, morrem.
Minha vida existe e sobrevive, justamente, nessa sucessão de faltas que me acometem e vou cometendo.

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Onze e trinta e cinco

Saindo da reunião, olho o relógio: 11:35h. Sou transportada para a Rua São Clemente 388 com minha Jansport de veludo cheia de chaveiros e um sorriso banguela.
Era o sinal anunciando o começo do segundo recreio. Um horário que já tanto me disse e hoje, é apenas uma posição burocrática de ponteiros.
Às 11:35h eu disparava para a cantina para evitar a fila – ainda comia salgado de presunto e catupiry e nem sabia o que era glúten. Ralava o joelho. Brincava de pique. Jogava Game Boy.
Naqueles 20 minutos, eu era tão feliz – saberia?
Mesmo no fim da alforria momentânea, ainda restava a alegria de só faltarem duas aulas para ir para casa.
E minha casa era templo. Tinha pão de queijo de lanche e ajuda da mamãe no dever de alemão.
Futebol na sala com meu irmão (e os vasos chineses que quebrávamos) e histórias do Tintim que meu pai contava antes de dormir. Pentear minhas bonecas com Lili e abraçar meus cãezinhos.
Mas eu sempre quis crescer. A vida dos meus irmãos mais velhos parecia tão mais interessante que a minha. Eles falavam de coisas desconhecidas e podiam viajar sem os pais. Beijavam na boca, bebiam cerveja e compravam suas roupas sozinhos. Isso sem falar que já não eram obrigados a estudar matemática nem a usar laço na cabeça.
Meu pedido foi atendido: o horário favorito da minha meninice travessa teve que acompanhar as mudanças que vieram com a idade. Às 11:35h eu também passei a lembrar que não tinha conseguido imprimir o trabalho que valia nota da aula seguinte e perdia aqueles preciosos 20 minutos na sala de computação. No meu último ano de colégio, às 11:35h eu me trancafiava na biblioteca para estudar história e geografia e treinar as redações para o vestibular – 11:35h era apenas o começo do meu dia letivo, que agora durava até sete da noite.
Na faculdade, 11:35h era um horário vazio, apenas o início da aula que duraria até 13h.
O sinal que tocava tão alto na infância latejava na lembrança.
Atualmente, às 11:35h já estou há tempos no trabalho. E só passo por Botafogo voltando de visitas ao hospital. Não noto mais quando dá 11:35h; não fumo nem cigarro para arrumar desculpa e ir tomar um ar puro. No fim de semana, 11:35h é apenas um horário razoável para tomar coragem de sair da cama para enfrentar a vida.
Hoje, na angústia – mal dos ansiosos, que só sentem o gosto depois de engolir o último pedaço – de aproveitar alguns 20 minutos que tanto me valham, tento ser feliz.

Sweet Satchels