Onze e trinta e cinco

Saindo da reunião, olho o relógio: 11:35h. Sou transportada para a Rua São Clemente 388 com minha Jansport de veludo cheia de chaveiros e um sorriso banguela.
Era o sinal anunciando o começo do segundo recreio. Um horário que já tanto me disse e hoje, é apenas uma posição burocrática de ponteiros.
Às 11:35h eu disparava para a cantina para evitar a fila – ainda comia salgado de presunto e catupiry e nem sabia o que era glúten. Ralava o joelho. Brincava de pique. Jogava Game Boy.
Naqueles 20 minutos, eu era tão feliz – saberia?
Mesmo no fim da alforria momentânea, ainda restava a alegria de só faltarem duas aulas para ir para casa.
E minha casa era templo. Tinha pão de queijo de lanche e ajuda da mamãe no dever de alemão.
Futebol na sala com meu irmão (e os vasos chineses que quebrávamos) e histórias do Tintim que meu pai contava antes de dormir. Pentear minhas bonecas com Lili e abraçar meus cãezinhos.
Mas eu sempre quis crescer. A vida dos meus irmãos mais velhos parecia tão mais interessante que a minha. Eles falavam de coisas desconhecidas e podiam viajar sem os pais. Beijavam na boca, bebiam cerveja e compravam suas roupas sozinhos. Isso sem falar que já não eram obrigados a estudar matemática nem a usar laço na cabeça.
Meu pedido foi atendido: o horário favorito da minha meninice travessa teve que acompanhar as mudanças que vieram com a idade. Às 11:35h eu também passei a lembrar que não tinha conseguido imprimir o trabalho que valia nota da aula seguinte e perdia aqueles preciosos 20 minutos na sala de computação. No meu último ano de colégio, às 11:35h eu me trancafiava na biblioteca para estudar história e geografia e treinar as redações para o vestibular – 11:35h era apenas o começo do meu dia letivo, que agora durava até sete da noite.
Na faculdade, 11:35h era um horário vazio, apenas o início da aula que duraria até 13h.
O sinal que tocava tão alto na infância latejava na lembrança.
Atualmente, às 11:35h já estou há tempos no trabalho. E só passo por Botafogo voltando de visitas ao hospital. Não noto mais quando dá 11:35h; não fumo nem cigarro para arrumar desculpa e ir tomar um ar puro. No fim de semana, 11:35h é apenas um horário razoável para tomar coragem de sair da cama para enfrentar a vida.
Hoje, na angústia – mal dos ansiosos, que só sentem o gosto depois de engolir o último pedaço – de aproveitar alguns 20 minutos que tanto me valham, tento ser feliz.

Sweet Satchels

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s