Tem dias

tem dias que amo minhas pernas
que me levam ao alto do morro
ao fim do caminho
e giram sem parar
feito engrenagem
e me sinto motor

tem dias que odeio minhas pernas
cansadas
falidas
me abandonam
me deixam à deriva na floresta
as curvas me vencem
e subo me arrastando
feito as jibóias que vez ou outra aparecem por lá

tem dias que as ladeiras me acolhem
com seus muros de pedra e ipês floridos
oferendas e galinhas
gaviões que voam baixo e vira-latas sorridentes pelo caminho

tem dias que o farfalhar das quaresmeiras me conquista
com seu pé direito tão alto
suas folhas me hipnotizam
e feito arco-íris
me põem à procura de pote de ouro
que encontro no topo
o amanhecer dourado das montanhas
debruçadas sobre o mar
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