Dez da noite tocou o telefone. Na voz da minha mãe, dor. Todo o esforço que ela fez há uns dez anos, de se mudar para a Lagoa, um lugar longe da Ipanema que ela adorava, para ficar mais perto dele, foi compensado ontem. Ontem, quando ela só precisou cruzar o corredor. Precisava, e ao mesmo tempo não queria, porque suspeitava que talvez aquele pequeno trajeto nunca mais fosse o mesmo.
Assim que soube do chamado, não houve obstáculo, nem tempo para raciocinar enquanto dirigia: saiu do 402 em direção ao 401. Só existiu trânsito de pensamentos que se sobrepunham enquanto minha mãe o olhava inerte, um corpo, um corpo tão familiar e tão forte; ali no chão, tão frágil.
Fiquei sem avô. O primeiro se foi quando eu ainda não realizava direito o que era ter um avô, não tinha me apegado a essa figura de um pai de outra geração. Pena. E aí restou vovô, o único, o avô que de longe era sério, um homem de mais de um e noventa de altura, alemão e ríspido quando queria. Mas de perto, só falava besteira e gostava de implicar com os netinhos. E de cantigas germânicas, que ele ensinou a mim e meu irmão numa viagem à Alemanha.
Ontem, por volta das nove e cinquenta, vovô desacordou. Saiu do ar, a antena perdendo o alcance, os músculos perdendo os movimentos, a pele perdendo a cor. Meu avô foi soldado de guerra. Quase morreu, viu gente morrer e passou fome. Viu amigos pelo chão, viu a dor, sentiu a dor. Meu avô foi soldado da vida. Vovô teve cânceres, livrou-se deles e passou raspando pela morte, que tantas vezes o teve na mira. Capitulou, enfim, quando cansou-se da batalha; a morte foi oponente covarde e meu avô se rendeu. Partiu devagar, de vez, foi-se para sempre.
Foram vinte minutos de massagem cardíaca, os capacetes do SAMU pelo chão, os macacões cáqui, o barulho da máquina que desenhava uma linha reta que não se mexia no monitor, minha mãe parada, chorando baixinho, fazendo carinho na canela fria do meu avô. E eu ali, inútil, espectadora do seu fim, o gosto amargo da impotência. Eu sabia que ele precisava ir, aqueles minutos sem ar descaracterizariam o avô que me teve como neta por vinte e três anos. Vovô lutou mais uma vez para ser livre.
A morte é um impacto, um susto, uma anomalia. A muda explosão de um corpo. Um fracasso de Deus.
Mas a morte não termina no fim. Quando confirmada a recente inexistência de meu avô, as providências: embrulhá-lo num lençol, vesti-lo antes do corpo endurecer, organizar o enterro, transportá-lo para o carro funerário, reservar uma capela no cemitério, avisar familiares e amigos. Criar familiaridade com palavras que não faziam parte do meu vocabulário normalmente: “funeral”, “velório”, “enterro”, “sarcófago”, “lápide”, “sepultura”, “jazigo”. Fora as bizarrices: “catálogo de caixões”, “quebrar os ossos do defunto se demorar demais para vestir”. Na confusão, fui eu que acabei escolhendo a roupa que meu avô vestiria para a eternidade: um terno azul marinho, uma camisa toda branca, meias também azuis. Não se coloca sapato em morto, não sei o porquê.
A cabeça pesada das poucas horas dormidas e do choro. Por que chorar cansa tanto assim? Eu estava esgotada, mas tinha que me fazer sobra para minha mãe, que desde cedo resolvia as burocracias da morte.
No velório, por cima do terno que escolhi, vestiram meu avô de rosas. E todos que estavam ali o cobriram, enfim, de amor. Era estranho pensar que eu nunca mais ia ver os dentes separados dele, tocar sua pele fininha, ouvir ele dizer que apesar dos meus anos a mais, eu ia ser sempre criança nos seus olhos. Essa finitude que a morte impõe… Construí meu avô com o que a morte não leva: memórias. A forma dele de subir escadas, na diagonal para os degraus parecerem menores, a mania de arquear as sobrancelhas na bravura singela, os olhos que quase se fechavam por completo quando ele ria.
Vovô não está mais aqui, mas ele vive em nós — tem muito dele no cruzar de pernas e nas mãos do meu irmão, por exemplo. Nós somos o legado e, enquanto estivermos aqui, ele vai continuar conosco nos retratos e nas lembranças.

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forro

nem sempre pele é
carapuça
carcaça
barreira
termômetro

pele é o maior órgão do corpo
capa da ossada
cheia de músculos
que pulsam por outras peles
e corações

pele é amontoado de
nervo, colágeno, gordura
a mesma receita de derme
que sabe-se lá por que
não produz aroma igual

abrigo para o outro
pele é refúgio
destino mais óbvio
e improvável
para o desamparado
que, se abrigando em nós,
nos abriga também

pele é embalagem
revestimento que não dá pra trocar
textura permanente da parede
erguida à nossa forma
quer agrade, quer não

pele é extensão de alma
leitura do tempo
no corpo perdendo forma e rigidez
desenho de dor
nas manchas escuras da epiderme e
linhas do rosto

pele tem memória
o cafuné da mãe
perto da orelha
a mão que se encaixa entre os dedos
feito peça de quebra-cabeça
o lábio-explorador das curvas e
declives
lembranças que inflam feito
bolha no calcanhar

pele é desvio
cilada tátil
tem algo de misterioso sobre a pele
no toque
arrepio que sobe à nuca
armadilha do bicho preso em nós
mapa que leva
da aflição ao desfrute

mas por que aplaudir tanto
o brilho do tecido
se o que agasalha
é o forro?

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não diga nada diga

não cabe tudo na palavra “tudo”
e “nada” tem quatro letras
e se
um sorriso abrisse janelas
e o grito, portas trancadas?

palavra pode dizer o que cala
e não dizer o que pretende
porque palavra é danada
adolescente destemperada

tem palavra que não chega
do coração à boca
porque se perde no caminho
tem palavra que morre na garganta
e ecoa no céu da boca
tímida e sozinha
e palavra que encontra o ar
só pra se mostrar

“eu te amo” nem sempre
é indie rock
com chopinho gelado
manhã de sol no mediterrâneo
pode ser sofá com tevê
sorvete no pote
“acende a luz que quero te ver”

se te amo
hás de saber
na palavra viva ou na palavra
que escondo
se esconde de nós
presa aos meus lábios
vem atrás dela

não importa a sequência das cartas
para o destino de um baralho

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