forro

nem sempre pele é
carapuça
carcaça
barreira
termômetro

pele é o maior órgão do corpo
capa da ossada
cheia de músculos
que pulsam por outras peles
e corações

pele é amontoado de
nervo, colágeno, gordura
a mesma receita de derme
que sabe-se lá por que
não produz aroma igual

abrigo para o outro
pele é refúgio
destino mais óbvio
e improvável
para o desamparado
que, se abrigando em nós,
nos abriga também

pele é embalagem
revestimento que não dá pra trocar
textura permanente da parede
erguida à nossa forma
quer agrade, quer não

pele é extensão de alma
leitura do tempo
no corpo perdendo forma e rigidez
desenho de dor
nas manchas escuras da epiderme e
linhas do rosto

pele tem memória
o cafuné da mãe
perto da orelha
a mão que se encaixa entre os dedos
feito peça de quebra-cabeça
o lábio-explorador das curvas e
declives
lembranças que inflam feito
bolha no calcanhar

pele é desvio
cilada tátil
tem algo de misterioso sobre a pele
no toque
arrepio que sobe à nuca
armadilha do bicho preso em nós
mapa que leva
da aflição ao desfrute

mas por que aplaudir tanto
o brilho do tecido
se o que agasalha
é o forro?

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