carta aos que não podem me ajudar (pelo fim de um amor)

à mulher sorridente que avisto da fila do banco
ao menino que pula na mãe na saída da escola
aos estranhos que sorriem a outros estranhos, como eu
à amiga que mora longe, ah, a distância
às crianças que só sofreram saudade das férias e dos brinquedos quebrados
aos velhinhos que jogam xadrez na praça
concentrados no cheque-mate e em não esquecer o remédio da pressão
aos que ainda gostam de dançar a dois
em pleno mundo de gente que conversa com objeto piscante inanimado
ao vendedor que elogia porque é fim de ano e ele precisar bater as metas
quero um elogio mesmo assim
aos que vivem o dia e choram à noite e enfrentam o mesmo dia de novo outra vez
como vocês conseguem?
ao motorista de táxi que dirige de taxímetro desligado, eu encharcada fazendo sinal, mas ele só quer atravessar o toró e ir para casa
ao porteiro que me olha no caminho do elevador, lágrimas nos olhos,
e deseja boa noite
ao cachorro lambendo minhas pernas
à orquídea que murcha devagar na sala
enquanto murcho devagar na cama
ao personagem do meu livro de cabeceira, protagonista da linda história de amor
que eu só conheço em páginas
vou sonhar com elas
e quem sabe fico por lá

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