Um homem sem nome

Não nos conhecemos. Nunca o vi no jornal nem na tevê e acho que não escreveu nenhum livro ou falou em um TEDx. Para ser honesta, não sei seu nome, não sei nada sobre ele: apenas conheço parte do trajeto de suas manhãs. Nos esbarramos toda terça e quinta na Estrada da Vista Chinesa.
Geralmente nos cruzamos na descida, rumos opostos, e o perco de vista rápido: nesses segundos, freio um pouco mais a bicicleta para investigá-lo: descubro que sobe concentrado, um livro aberto nas mãos. Usa short de pano e chapéu Panamá. A camiseta branca realça uma barriga protuberante — um homem sem barriga é um homem sem história, dizem — e os tênis gastos, os longos caminhos percorridos. Usa oclinhos de armação prateada e ainda lhe restam alguns fios brancos na cabeça. Deve ter uns setenta e tantos anos.
As páginas abertas lhe roubam a atenção e não me deixam reparar se é casado — espero que não tenha perdido a mulher, todos os velhinhos viúvos que conheço ficam desnorteados, não sabem nem onde procurar as meias. Se for, parece que prefere subir de braços dados com as histórias, só para variar um pouco.
Só o vejo subindo: caminha montanha acima lentamente, empunhando o livro. Curioso é que nesses dois anos em que nos cruzamos, há sempre esse mesmo objeto em suas mãos: as capas duras variam entre o verde, azul e vermelho. Nunca consegui ler os títulos. Seus olhos acompanham as linhas das histórias que leva consigo para passear. Sem medo de tropeçar, vai avesso aos ciclistas e carros que sobem e descem pela via.
As histórias são mesmo muito mais interessantes que a realidade: ele não desvia o olhar das páginas, nem para ver os sabiás e macacos pregos. Anda imerso nos amores e aventuras que não viveu e agora, no fim da vida, só pode conhecer nos livros. Talvez, em meio a todos aqueles esportistas e motoristas, tenha ele a maior urgência: já acorda em busca de emoções para manter-se vivo.
Não sei por quanto tempo caminha lendo, até onde vai. Nunca o vi trocando palavra, como se não pertencesse àquela paisagem, àquele tempo. O que lê? Oposto ao flaneur de Baudelaire, que observa a vida, ele é “flanado”, absorto pelo livro. Um homem a se observar de longe e não entender. O que será que esse senhor tem achado da política e das mudanças climáticas? Será que, há trinta anos, ele já subia por esse caminho? O que terá mudado até hoje? Como pensa esse leitor andarilho que há tempos chama minha atenção com sua rotina peculiar?
Você nunca ficou intrigado com um sujeito que viu ou sobre alguém de que escutou histórias? Uma pessoa enigmática, misteriosa, que nos provoca uma série de perguntas? Quem é, qual a sua verdade?
Naquele momento, ali, para mim, aquele senhor era um homem sem destino, sem sombra, sem nome. Quase mítico. Mais um incógnito que me desperta curiosidade e a quem dedico toda uma crônica de especulações e dúvidas.
Clarice Lispector escreveu “A hora da estrela” depois de cruzar com uma mulher na rua e afirmar que “sabia tudo sobre ela”. Macabéia nasceu do acaso, de um encontro entre duas desconhecidas e da emergência de saber tudo sobre outra pessoa, para virar um dos mais aclamados romances da literatura brasileira.
Na pressa ou no medo de parecer invasiva, apenas o acompanho com os olhos, sempre curiosa. Diferente de Clarice, continuo sem saber nada sobre aquele assíduo leitor. Quem sabe, não o invento num romance?

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Nem tudo cabe na nuvem

Antigamente as lembranças moravam em caixas de madrepérola, latas de biscoito e recipientes pintados a mão, no fundo da gaveta da cômoda. Cartas, retratos e recortes amarelando ao tempo, se apagando também da memória. Será que toda lembrança precisa amarelar um dia? Seletiva, eu não guardava tudo, não haveria espaço na caixa. Ela tinha seu fim.
Agora meu espaço é infinito, guardo tudo porque não preciso ser seletiva. Você certamente ouviu falar do conceito de “nuvem”, espécie de lugar onde armazenamos arquivos através da internet. Não está no computador, nem na mente, nem em pasta alguma — está num local invisível que pode ser acessado por qualquer dispositivo em qualquer lugar do mundo. A informação que some e aparece, sumindo a cada encerramento de sessão. Já ouvi dizer que existem fazendas de servidores com dispositivos que contêm todas as nossas informações. Quem tem acesso a elas? Estarão depositadas num quartel general na China, nossos dados servindo de armamento?
Vale lembrar que antes da nuvem existia o pendrive, antes deste, o cd e, pré-histórico, o disquete. Teve até um meme que recentemente circulou na internet sobre o que Jesus Cristo e o disquete tinham em comum: ambos morreram para virar o “ícone da salvação” (curioso mesmo que cada vez que a gente aperta “salvar”, aparece lá o bendito disquete, tão démodé). Todos eles eram físicos, os guardávamos na pasta, na bolsa, num bolso. A nuvem flutua além de nós.
Fomos oferecidos de bandeja toda uma vida de informação salva, o registro documental e indelével da história, num compartimento invisível e perpétuo. A bomba atômica não seria capaz de destruir uma nuvem, não é? Tenho medo do que possa estar lá. Provavelmente minha nuvem ainda estará aqui quando eu partir: meus filhos vão herdar minha vida cibernética, infinita? Isso é um pouco assustador.
Memória é mediação: uma série de coisas que escolhemos, ou não, lembrar. Mas a nuvem nos atropela e coloca, arbitrariamente, tudo junto e misturado. Colecionamos sem o menor critério, somente porque cabe. Vejo a “nuvem” como um sem fim de caixas de papelão idênticas e enfileiradas, cheias de flores mortas, quinquilharias, objetos feios e cortantes de que não lembro, não preciso mais.
Lembranças em linha de produção, se amontoando sobre mim. Me sufocando? A nuvem nada tem de leve. Um objeto virtual: não posso tocá-la, mas é tão real quanto eu, tão maior que eu.
Você já foi futucar as lembranças cheias de teia de aranha na sua nuvem? Dropbox, Google Drive, iCloud e os outros novecentos tipos de armazenamento em nuvem guardam tudo que conservamos sobre outros, sobre nós. Está tudo ali, exposto e invisível. Haverá espaço nas nuvens para os sentimentos, as sensações?
Para onde vai toda aquela bagagem afetiva dos amores que passaram? Cabe na nuvem também? Deviam inventar a nuvem das emoções para jogarmos todos aqueles sentimentos que já não têm uso.
Mas nem tudo cabe na nuvem.

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