Nem tudo cabe na nuvem

Antigamente as lembranças moravam em caixas de madrepérola, latas de biscoito e recipientes pintados a mão, no fundo da gaveta da cômoda. Cartas, retratos e recortes amarelando ao tempo, se apagando também da memória. Será que toda lembrança precisa amarelar um dia? Seletiva, eu não guardava tudo, não haveria espaço na caixa. Ela tinha seu fim.
Agora meu espaço é infinito, guardo tudo porque não preciso ser seletiva. Você certamente ouviu falar do conceito de “nuvem”, espécie de lugar onde armazenamos arquivos através da internet. Não está no computador, nem na mente, nem em pasta alguma — está num local invisível que pode ser acessado por qualquer dispositivo em qualquer lugar do mundo. A informação que some e aparece, sumindo a cada encerramento de sessão. Já ouvi dizer que existem fazendas de servidores com dispositivos que contêm todas as nossas informações. Quem tem acesso a elas? Estarão depositadas num quartel general na China, nossos dados servindo de armamento?
Vale lembrar que antes da nuvem existia o pendrive, antes deste, o cd e, pré-histórico, o disquete. Teve até um meme que recentemente circulou na internet sobre o que Jesus Cristo e o disquete tinham em comum: ambos morreram para virar o “ícone da salvação” (curioso mesmo que cada vez que a gente aperta “salvar”, aparece lá o bendito disquete, tão démodé). Todos eles eram físicos, os guardávamos na pasta, na bolsa, num bolso. A nuvem flutua além de nós.
Fomos oferecidos de bandeja toda uma vida de informação salva, o registro documental e indelével da história, num compartimento invisível e perpétuo. A bomba atômica não seria capaz de destruir uma nuvem, não é? Tenho medo do que possa estar lá. Provavelmente minha nuvem ainda estará aqui quando eu partir: meus filhos vão herdar minha vida cibernética, infinita? Isso é um pouco assustador.
Memória é mediação: uma série de coisas que escolhemos, ou não, lembrar. Mas a nuvem nos atropela e coloca, arbitrariamente, tudo junto e misturado. Colecionamos sem o menor critério, somente porque cabe. Vejo a “nuvem” como um sem fim de caixas de papelão idênticas e enfileiradas, cheias de flores mortas, quinquilharias, objetos feios e cortantes de que não lembro, não preciso mais.
Lembranças em linha de produção, se amontoando sobre mim. Me sufocando? A nuvem nada tem de leve. Um objeto virtual: não posso tocá-la, mas é tão real quanto eu, tão maior que eu.
Você já foi futucar as lembranças cheias de teia de aranha na sua nuvem? Dropbox, Google Drive, iCloud e os outros novecentos tipos de armazenamento em nuvem guardam tudo que conservamos sobre outros, sobre nós. Está tudo ali, exposto e invisível. Haverá espaço nas nuvens para os sentimentos, as sensações?
Para onde vai toda aquela bagagem afetiva dos amores que passaram? Cabe na nuvem também? Deviam inventar a nuvem das emoções para jogarmos todos aqueles sentimentos que já não têm uso.
Mas nem tudo cabe na nuvem.

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