O verdadeiro legado olímpico

Esse texto demorou para nascer porque foram intensos (e eu desejei que, intermináveis) esses últimos dias no Rio. Só quem resolveu se entregar e viver de verdade as olimpíadas — seja pela TV ou através dos jornais, revistas e internet; seja passeando pelo Rio, indo às instalações olímpicas, assistindo os jogos — sente o mesmo que eu agora: um vazio sem fim. Qual esporte acompanhar hoje? Que hino vamos ouvir agora? Cadê aquela vibração, o zum zum zum até tarde na rua? Cadê todas aquelas pessoas lotando a zona portuária e conhecendo Deodoro? Junto com os turistas, atletas e delegações vão dias de alegria, otimismo e união.
Nas arenas, gritos em idiomas desconhecidos e bandeiras dos quatro cantos do mundo. Ouvir todas essas línguas que não se decifra, na minha cidade, me deixou arrepiada. Não é pelo complexo de vira-lata não, mas é que não consigo entender, mesmo, como uma cidade como o Rio não é a mais visitada do mundo: somos acolhedores, simpáticos, temos a mistura mais linda de mar e montanha, praias espetaculares e, mais recentemente, uma profusão de museus e ofertas culturais, além da nossa própria cultura popular. Tomara que isso mude daqui pra frente.
É claro que as olimpíadas não chegaram nem perto de resolver nossos problemas sociais, políticos e as mazelas da nossa sociedade. Ainda há muito a se fazer em infraestrutura e inclusão social, mas foi dado o primeiro passo — é preciso continuar a caminhada. Mas durante esses dias de olimpíada, vi gente se rendendo à magia do esporte e do alto astral, pulando e cantando em euforia. Foi mais forte que carnaval. Gente que esqueceu, só por duas semanas, nossos defeitos e contradições e se deu ao luxo de torcer, vibrar, se sentir orgulhoso de ter nascido no Rio e de cantar o hino do Brasil. Gente que deixou a novela de lado para aprender mais sobre taekwondo e esgrima, conhecer melhor nossos ídolos e também culturas diferentes. Gente que talvez comece a assimilar que educação e esporte são um binômio e uma ferramenta de transformação. Que tendo nossa casa de palco à celebração do esporte, aprendamos a dar mais valor a ele.
Nesses últimos dias, percebi um resgate da autoestima do carioca, do brasileiro, não só por termos tido o melhor desempenho em jogos olímpicos em termos de medalha, nem porque fizemos uma festa linda. Mas porque conseguimos transmitir ao mundo o verdadeiro espírito brasileiro. A boa vontade, o se-vira-nos-trinta, a alegria de viver e o sorriso no rosto ficaram evidentes aos visitantes — apesar de. Apesar de todos os problemas, riscos e embaraços que nós e o mundo temíamos. Conheço carioca que nunca achou que os jogos dariam certo. Que seriam um fracasso, uma prova de que nossa República das Bananas é mesmo um país sem perspectiva de melhora. A conclusão do primeiro dia sem jogos é que eles vão deixar saudades, a mais bela palavra do nosso português brazuca.
Vi de perto momentos para sempre impressos na memória: a conquista do ouro por Rafaela Silva, menina da Cidade de Deus e que, nos últimos jogos, em Londres, foi desacreditada e chamada de macaca. Obrigada, Rafa, pela sua fibra e garra. Estava lá na aflição no Maracanã, na roleta russa que é a disputa por pênaltis — mas depois de três bolas alemãs no nosso travessão, tinha certeza de que tínhamos, naquela tarde, a sorte do campeão. O futebol nos lavou a alma, talvez reacendendo a esperança de que a vida nem sempre é 7 a 1. Cá estamos outra vez, de cabeça erguida, depois de uma injeção de positividade, prontos para matar no peito os próximos desafios.
Acho que esse é o verdadeiro legado olímpico.

2016 Rio Olympics - Closing ceremony

2016 Rio Olympics – Closing ceremony – Maracana – Rio de Janeiro, Brazil – 21/08/2016. The Brazilian flag is seen projected during the closing ceremony. REUTERS/Fabrizio Bensch FOR EDITORIAL USE ONLY. NOT FOR SALE FOR MARKETING OR ADVERTISING CAMPAIGNS.

Nem tudo cabe na nuvem

Antigamente as lembranças moravam em caixas de madrepérola, latas de biscoito e recipientes pintados a mão, no fundo da gaveta da cômoda. Cartas, retratos e recortes amarelando ao tempo, se apagando também da memória. Será que toda lembrança precisa amarelar um dia? Seletiva, eu não guardava tudo, não haveria espaço na caixa. Ela tinha seu fim.
Agora meu espaço é infinito, guardo tudo porque não preciso ser seletiva. Você certamente ouviu falar do conceito de “nuvem”, espécie de lugar onde armazenamos arquivos através da internet. Não está no computador, nem na mente, nem em pasta alguma — está num local invisível que pode ser acessado por qualquer dispositivo em qualquer lugar do mundo. A informação que some e aparece, sumindo a cada encerramento de sessão. Já ouvi dizer que existem fazendas de servidores com dispositivos que contêm todas as nossas informações. Quem tem acesso a elas? Estarão depositadas num quartel general na China, nossos dados servindo de armamento?
Vale lembrar que antes da nuvem existia o pendrive, antes deste, o cd e, pré-histórico, o disquete. Teve até um meme que recentemente circulou na internet sobre o que Jesus Cristo e o disquete tinham em comum: ambos morreram para virar o “ícone da salvação” (curioso mesmo que cada vez que a gente aperta “salvar”, aparece lá o bendito disquete, tão démodé). Todos eles eram físicos, os guardávamos na pasta, na bolsa, num bolso. A nuvem flutua além de nós.
Fomos oferecidos de bandeja toda uma vida de informação salva, o registro documental e indelével da história, num compartimento invisível e perpétuo. A bomba atômica não seria capaz de destruir uma nuvem, não é? Tenho medo do que possa estar lá. Provavelmente minha nuvem ainda estará aqui quando eu partir: meus filhos vão herdar minha vida cibernética, infinita? Isso é um pouco assustador.
Memória é mediação: uma série de coisas que escolhemos, ou não, lembrar. Mas a nuvem nos atropela e coloca, arbitrariamente, tudo junto e misturado. Colecionamos sem o menor critério, somente porque cabe. Vejo a “nuvem” como um sem fim de caixas de papelão idênticas e enfileiradas, cheias de flores mortas, quinquilharias, objetos feios e cortantes de que não lembro, não preciso mais.
Lembranças em linha de produção, se amontoando sobre mim. Me sufocando? A nuvem nada tem de leve. Um objeto virtual: não posso tocá-la, mas é tão real quanto eu, tão maior que eu.
Você já foi futucar as lembranças cheias de teia de aranha na sua nuvem? Dropbox, Google Drive, iCloud e os outros novecentos tipos de armazenamento em nuvem guardam tudo que conservamos sobre outros, sobre nós. Está tudo ali, exposto e invisível. Haverá espaço nas nuvens para os sentimentos, as sensações?
Para onde vai toda aquela bagagem afetiva dos amores que passaram? Cabe na nuvem também? Deviam inventar a nuvem das emoções para jogarmos todos aqueles sentimentos que já não têm uso.
Mas nem tudo cabe na nuvem.

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Sem fim

Finados: aquele feriado em que a chuva sempre aparece, trazendo do céu as lágrimas em homenagem a todos os que se foram. Levados pelas injustiças da vida, pelo imperdoável tic tac do tempo, uma fatalidade, um descuido. Dia de lembrar dos que deram tchau tchau e nos esperam em outro lugar, ou simplesmente partiram, sem adeus. Despedidas são sempre doloridas, mas partidas sem volta nos assustam pela finitude: tememos o “nunca mais”. A morte, esse caminho sem volta, sem escapatória. Essa viagem longa só de ida.
Como será (e ainda: será?) que encontramos aqueles que se foram? Existe mesmo essa história de céu, vida após a morte, paraíso e inferno? Voltamos em outra camada social, sob a forma do sexo oposto? Besouro, baleia? E se voltamos, onde chegamos antes do retorno? “Existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”.
A morte; o maior mistério do mundo sem perspectiva alguma de ser desvendado.
Penso nos habitantes do meu coração que mudaram de endereço e largaram seus espaços lá, intactos. Inquilinos vitalícios, que não voltarão, mas não perderam o lar no peito alheio. Trocaram de mundo, sumiram daqui — para onde, então? Subiram, saíram do meu campo de visão. Lembro deles e gostaria de poder tocá-los, pedir mais uma opinião, ouvir outra história. Ver o riso se abrindo feito botão de flor. Só mais uma vez.
Tem gente que não passeia mais por terra, flana por outro lugar longe daqui. Penso nos que amamos: e é aí que peço atenção. Amamos é conjugação do verbo amar no presente do indicativo e no pretérito perfeito. Amamos hoje. Mas amamos ontem também. Amamos os que estão aqui e também os que estão distantes, inalcançáveis ao olhar. Amamos sempre. Amor não tem fronteira de lugar, espaço, tempo. Ele gruda na gente feito carrapato e fica, como marca de nascença. Imune ao tempo, ileso à vida: o amor não acaba porque os outros desaparecem. O amor não tem fim.

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Agora não

As mulheres gritam e as crianças choram. Os homens seguram suas mãos em pavor mudo: nosso Boeing 777 despenca das nuvens e freia com rispidez à semelhança de uma montanha russa. Não tenho medo de avião, mas esses solavancos estão me incomodando: me tiraram do sono. Ia ser muito irônico se ele caísse agora, a caminho das férias. Talvez eu agora entenda quem tem medo de avião: o sentimento é de impotência – morrer despencando do azul nos faz sentir realmente incapazes, vidas indiscriminadas se desfazendo feito nós de cabelos por escova. Eu ainda não tive filhos nem ganhei uma TV em sorteio de supermercado. Não posso morrer nesse voo. Seria um desperdício: as profecias do horóscopo de janeiro não aconteceriam – a semana que vem ia ser de conquistas no trabalho e um amor antigo bateria à porta (ele ia ficar desolado mais uma vez!). Cento e noventa e sete emails para responder e a calça favorita para buscar no conserto. O que aconteceria com os móveis encomendados para a casa nova? Morrer logo agora, que tinha prometido ensinar a vovó Zizi a mexer no iPhone e visitar os filhos da minha madrinha? Se eu morrer nesse voo, ninguém nunca vai ler isso. Vou deixar promessas a cumprir e parcelas do cartão de crédito a pagar. Tinha planos de morar em Berlin e de me engajar na política contra toda essa impunidade. Não quero que a vida termine assim, numa batalha tão desleal: sou guerreira, quero a chance de  me defender. Aqui, em amplitude que não me cabe nos olhos, seria reles pingo de sangue em guerra que não me deixaram lutar. Gosto de vir ao céu, mas a passeio – não pretendo ficar por aqui por enquanto (será que, afinal, eu iria pro céu?): quero me ver de cabelos brancos e esperar, paciente, a hora de reencontrar meu grande amor. A vida é tão frágil que se desfalece em segundos? A morte deve ter a cor das nuvens turvas que quase nos levaram: um dia conto como é.

Agora não

A segunda opção

Quando foi mesmo que nos apaixonamos, meu amor? Precise em minutos, por favor. Como deixamos isso acontecer? Terá o amor nos abatido de dia ou à noite? Na fila do avião ou enrolando coleiras na calçada?
Pode ter sido na madrugada de um domingo: a Lagoa estava encoberta e não se via o Dois Irmãos. Ficamos tão curiosos com aquele estranhamento que começamos a construir nossa cumplicidade. Era o horário das garças caminhando sem pressa pela ciclovia. Encontros proibidos aconteciam. Não tínhamos hora nem devíamos ser vistos. Será que foi ali?
Ou terá sido numa quinta de março, fechando o verão? Você ligou para a namorada do seu irmão e pediu para falar comigo. Àquela noite, me levou para debaixo de uma árvore – era uma amendoeira ou uma acácia? – e me beijou como quem acaba de encontrar o ar. Respiramos aliviados.
Fomos apresentados por amigos ou saímos nos conhecendo? Foi de propósito ou sem querer? Nos achamos no acaso ou o destino nos designou?
Já não sei mais. Em que instante restou-nos apenas ser um do outro? Quero tanto lembrar. Já éramos sem saber?
Inútil refazer nossos caminhos. Fluímos com a facilidade dos que já se encontraram centenas de vezes. Não à toa dizem que os grandes amores nascem de acidentes. De segundos.
Quais foram nossas primeiras palavras? Não as escuto. Perguntas desembocaram em silêncios: os silêncios secretos entre nós. Algumas ficaram sem resposta: até quando? Por quê? Outras, tantas, vêm se criando dia após dia, teimosamente. Deve ser por isso que não dê para fotografar o momento em que nasceu nosso amor – ele é tão embebido em mistérios que nem palavras o decodificam.
Ansiosa, sempre busquei respostas. Aí vem o amor a me tirar as rédeas. Por que querer entender tudo? Chega de perguntas, você me diz, a voz rouca me seduzindo. A neblina do Dois Irmãos encobre a paisagem, mas ela está ali: é preciso vislumbrá-la por trás do que se vê – ou do que não se vê, ainda.
Rendida, acato sua sugestão. Como fazer diferente? O amor é maior que eu. Interdito minhas perguntas, tola insistência em ter o mundo nas mãos. Ou se controla o amor ou se vive o amor. Fico com a segunda opção.

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Sede de Marina

Você não vai me ver pedindo outra coisa em restaurante que não ela, água. A falta de transparência dos refrigerantes nunca me apeteceu e os sucos eram doces demais. “A vida não é tão doce, vai ficar mal acostumada!”, dizia minha babá Marina, espécie de mãe para mim, cheia de ditados e explicações para tudo.
Não só dentro, mas em torno de mim, água sempre foi bem vinda: gelada para me despertar, friazinha em dia de calor, morna na Bahia, fervendo como remédio para os dentes tilintantes.
Ela tinha nome de mar e por mais que só tomasse Coca, Marina fez da água meu líquido favorito; devia pensar que só água combina com pureza de criança. Lembro ainda do sotaque nordestino me dizendo como era maravilhosa a água: nunca ia me parar, porque não era parede dura. “Água sempre vai aonde quer, e nada consegue se opor a ela”, me explicava. “Água é tão paciente, que fura pedra. Lembre-se disso, minha filha. Você é metade água: se não consegue passar pelo obstáculo, contorne-o, como ela faz.” Marina não tinha estudo, mas foi das pessoas mais sábias que conheci.
Com ela não tinha moleza: era bronca na certa quando eu fazia besteira. Mas quando me achava injustiçada, brigava até com meu pai. Geniosa, era mulher de fortes convicções. Marina teve dores que aprimoraram sua sensibilidade; perdeu um filho. Deve ser por isso que me tomou como sua.
Ela se foi de repente – a velhice a carregou para longe de mim. Não, ela não se despediu do mundo; foi abandonada pelo juízo. Absolveram-na de obrigações e responsabilidades; tornaram-na criança outra vez. Hoje quando lhe telefono, dou risada como ela devia fazer com minha imaginação fértil de menina. Mas sinto falta da lucidez de seus conselhos.
Semana passada, depois de falar com ela no telefone e ouvir que minha mãe tinha passado bem à noite sob seus cuidados – fantasia recorrente -, falei com sua irmã. Tinha feito calor e ela passara o dia fora. Quando chegou, disse, Marina contou-lhe que tinha passado o dia no quintal me dando banho de mangueira. Meus olhos se encheram da água que ela me ensinara a amar. Como eu tinha sede da minha Marina.
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