a citação

para Ana Martins Marques

não vou falar de nós
vou falar da última conversa que tive no elevador
bom dia
o tempo vai virar
imagina no verão
vou falar dos agapantos brancos e lilases
que só dão flor em novembro
e morrem rápido
vou falar da nova receita que inventei
com quinua e passas
ah, eu aprendi a gostar de passas
e não largo mais no canto do prato
para você
vou falar de uma raça nova de cachorro que vi
atravessando a rua para não pisar na sua calçada
um pelo meio desgrenhado
seu cabelo depois do banho
vou falar da poesia que li no livro que ganhei de aniversário
pela idade que você não testemunhou
no jantar que você não foi
e falava sobre uma boa ideia para um poema
quase te achei uma boa ideia
você, uma frase que encontrei num caderno antigo
que achei que tivesse escrito
naqueles dias de tantas horas
e tantos beijos
mas era uma citação
que não era minha

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minha culpa

escrevi esse poema
naquela vez que a gente se encontrou por acaso
no saguão do aeroporto
de uma cidade que não era lar de nenhum de nós
eu tinha acabado de perder o voo
você não disse
mas estava prestes a fazê-lo
para embarcar
seja lá pra onde eu fosse
trocar de assento com uma senhora
desconfiada
que ia ficar com medo de sentar no lugar errado
porque andava de avião pela primeira vez
e no meio do voo
você ia ter que levantar porque ela não conseguia ligar a tevê
e era culpa do lugar
ela dizia
você tinha vontade de responder
que a culpa era minha

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antecedentes

pintei meus sonhos
com giz colorido
no papel de mesa
daquele restaurante
um unicórnio dourado
uma estrela de nove pontas
um mundo pequenino
feito o planeta do pequeno príncipe
pra gente morar

escrevi meus medos
na carta de um mês de namoro
pra você logo se acostumar
com minhas lágrimas
repentinas
unhas roídas de ansiedade
noites na cama
para lá e para cá

coloquei meus defeitos
na geladeira
um ímã
do meu signo do zodíaco
uma pista
pra quando eu te tirar do sério
não que eu acredite em horóscopo
nem você

acreditamos em qualquer coisa
quando precisamos de resposta

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nasce-se

hoje é o dia em que nasceram
os primeiros fios de cabelo
qua iam cobrir a metade das costas
e os pés para dar todos os passos
em direção ao mundo
hoje saíram os primeiros sons
da boca que ia viver das palavras
desconhecidas
cuidado com elas
são frágeis
como as palavras
o bebê também não pode
cair no chão
hoje passou a existir a pele
que era fininha e lisa
feito tecido
arrebentado pelos cortes e ralados
abrigo das manchas da superfície
e esconderijo das marcas lá de dentro
de mim
foi hoje que surgiram as sementinhas dos primeiros abraços
e beijos
e carinhos
recebidos para espalhar por aí
feito panfleto de show
só que em forma de sentimento
as batucadas, do coração
hoje passaram a existir as conexões nervosas
para as primeiras sensações dos primeiros amores
que eu ia sentir
sem saber o que era
amor
até o susto
de amar
hoje caíram as primeiras gotas
mas não era banho de mangueira
nem respingo de mar
torneira aberta tantas vezes
pelas tristezas
e alegrias
dessa vida

foi hoje
há uns anos atrás

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carta aos que não podem me ajudar (pelo fim de um amor)

à mulher sorridente que avisto da fila do banco
ao menino que pula na mãe na saída da escola
aos estranhos que sorriem a outros estranhos, como eu
à amiga que mora longe, ah, a distância
às crianças que só sofreram saudade das férias e dos brinquedos quebrados
aos velhinhos que jogam xadrez na praça
concentrados no cheque-mate e em não esquecer o remédio da pressão
aos que ainda gostam de dançar a dois
em pleno mundo de gente que conversa com objeto piscante inanimado
ao vendedor que elogia porque é fim de ano e ele precisar bater as metas
quero um elogio mesmo assim
aos que vivem o dia e choram à noite e enfrentam o mesmo dia de novo outra vez
como vocês conseguem?
ao motorista de táxi que dirige de taxímetro desligado, eu encharcada fazendo sinal, mas ele só quer atravessar o toró e ir para casa
ao porteiro que me olha no caminho do elevador, lágrimas nos olhos,
e deseja boa noite
ao cachorro lambendo minhas pernas
à orquídea que murcha devagar na sala
enquanto murcho devagar na cama
ao personagem do meu livro de cabeceira, protagonista da linda história de amor
que eu só conheço em páginas
vou sonhar com elas
e quem sabe fico por lá

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no dia em que parei de ler o horóscopo

no dia em que parei de ler o horóscopo
não lembro se chovia
ou se fui eu que não saí de casa
foi um dia assim
como outro qualquer
mais um do calendário gregoriano
em que o sol nasceu
e se pôs
e as estrelas brilharam no céu
a lua estava lá
ela viu
foi testemunha quando parei de achar que as constelações
me levariam a algum lugar
e de acreditar que a hora em que nasci
teria alguma coisa a ver com minha personalidade
ou que o retrocesso dos planetas
pudesse interferir no amor dos homens
e se fosse me guiar pelo que dizem dos signos do zodíaco
pobre de mim que sou de escorpião
a intensa, a ciumenta, a sedutora, a vingativa
no dia em que parei de ler o horóscopo
passei a acreditar em todo o resto

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em nenhuma cabeça cabe o mar

em cabeça de menino
não cabe o mar
com seus peixes e baleias
e ondas enormes que homens cruzam corajosos
mar de águas claras e quentinhas
gélidas, parecendo liquidificador
o mar que
“como assim o não tem fim?”
abarca mais gotas que todas as lágrimas
porque o mar é dessas medidas
imprecisas
de que tanto precisamos

em cabeça de mulher grávida
não cabe ansiedade
as dúvidas sobre o bebê que carrega
vai nascer com todos os dedinhos? com muito cabelo? os olhos ainda vão ser claros depois de seis meses?
e se herdar o nariz da vovó Lourdes?
o importante é ter saúde
o primeiro podia ser menino
para proteger a irmãzinha mais nova
que ainda nem sonha em virar semente
e o medo de criá-lo em mundo
onde pessoas morrem por bicicletas
e bandidos aparecem em palanque na tevê?
é tão estranho servir de matéria prima
você e mais alguém produzindo vida
sem ser Deus

em cabeça de cego
não cabe a curiosidade
sobre o mundo
que ele só enxerga pelos dedos, barulhos, aromas
não conhece as flores
as montanhas
as crianças correndo no gramado
e sobre todas as coisas que ele não alcança
de como são as cores
por que o mar não é o amarelo e as saudades,
arco-íris?

em coração de mãe
não cabem as saudades de filho distante
que se foi por poucos dias
de filho que se foi antes da hora
porque saudades não cabem nem no mar

em cabeça de poeta
não cabe o amor
motor da sua criação
que alguns dias se esgota
noutros, o esgota
vai colhendo todos os amores por aí
os que sente, os que finge
os que rouba
porque amor também transborda

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