Sem fim

Finados: aquele feriado em que a chuva sempre aparece, trazendo do céu as lágrimas em homenagem a todos os que se foram. Levados pelas injustiças da vida, pelo imperdoável tic tac do tempo, uma fatalidade, um descuido. Dia de lembrar dos que deram tchau tchau e nos esperam em outro lugar, ou simplesmente partiram, sem adeus. Despedidas são sempre doloridas, mas partidas sem volta nos assustam pela finitude: tememos o “nunca mais”. A morte, esse caminho sem volta, sem escapatória. Essa viagem longa só de ida.
Como será (e ainda: será?) que encontramos aqueles que se foram? Existe mesmo essa história de céu, vida após a morte, paraíso e inferno? Voltamos em outra camada social, sob a forma do sexo oposto? Besouro, baleia? E se voltamos, onde chegamos antes do retorno? “Existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”.
A morte; o maior mistério do mundo sem perspectiva alguma de ser desvendado.
Penso nos habitantes do meu coração que mudaram de endereço e largaram seus espaços lá, intactos. Inquilinos vitalícios, que não voltarão, mas não perderam o lar no peito alheio. Trocaram de mundo, sumiram daqui — para onde, então? Subiram, saíram do meu campo de visão. Lembro deles e gostaria de poder tocá-los, pedir mais uma opinião, ouvir outra história. Ver o riso se abrindo feito botão de flor. Só mais uma vez.
Tem gente que não passeia mais por terra, flana por outro lugar longe daqui. Penso nos que amamos: e é aí que peço atenção. Amamos é conjugação do verbo amar no presente do indicativo e no pretérito perfeito. Amamos hoje. Mas amamos ontem também. Amamos os que estão aqui e também os que estão distantes, inalcançáveis ao olhar. Amamos sempre. Amor não tem fronteira de lugar, espaço, tempo. Ele gruda na gente feito carrapato e fica, como marca de nascença. Imune ao tempo, ileso à vida: o amor não acaba porque os outros desaparecem. O amor não tem fim.

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Dez da noite tocou o telefone. Na voz da minha mãe, dor. Todo o esforço que ela fez há uns dez anos, de se mudar para a Lagoa, um lugar longe da Ipanema que ela adorava, para ficar mais perto dele, foi compensado ontem. Ontem, quando ela só precisou cruzar o corredor. Precisava, e ao mesmo tempo não queria, porque suspeitava que talvez aquele pequeno trajeto nunca mais fosse o mesmo.
Assim que soube do chamado, não houve obstáculo, nem tempo para raciocinar enquanto dirigia: saiu do 402 em direção ao 401. Só existiu trânsito de pensamentos que se sobrepunham enquanto minha mãe o olhava inerte, um corpo, um corpo tão familiar e tão forte; ali no chão, tão frágil.
Fiquei sem avô. O primeiro se foi quando eu ainda não realizava direito o que era ter um avô, não tinha me apegado a essa figura de um pai de outra geração. Pena. E aí restou vovô, o único, o avô que de longe era sério, um homem de mais de um e noventa de altura, alemão e ríspido quando queria. Mas de perto, só falava besteira e gostava de implicar com os netinhos. E de cantigas germânicas, que ele ensinou a mim e meu irmão numa viagem à Alemanha.
Ontem, por volta das nove e cinquenta, vovô desacordou. Saiu do ar, a antena perdendo o alcance, os músculos perdendo os movimentos, a pele perdendo a cor. Meu avô foi soldado de guerra. Quase morreu, viu gente morrer e passou fome. Viu amigos pelo chão, viu a dor, sentiu a dor. Meu avô foi soldado da vida. Vovô teve cânceres, livrou-se deles e passou raspando pela morte, que tantas vezes o teve na mira. Capitulou, enfim, quando cansou-se da batalha; a morte foi oponente covarde e meu avô se rendeu. Partiu devagar, de vez, foi-se para sempre.
Foram vinte minutos de massagem cardíaca, os capacetes do SAMU pelo chão, os macacões cáqui, o barulho da máquina que desenhava uma linha reta que não se mexia no monitor, minha mãe parada, chorando baixinho, fazendo carinho na canela fria do meu avô. E eu ali, inútil, espectadora do seu fim, o gosto amargo da impotência. Eu sabia que ele precisava ir, aqueles minutos sem ar descaracterizariam o avô que me teve como neta por vinte e três anos. Vovô lutou mais uma vez para ser livre.
A morte é um impacto, um susto, uma anomalia. A muda explosão de um corpo. Um fracasso de Deus.
Mas a morte não termina no fim. Quando confirmada a recente inexistência de meu avô, as providências: embrulhá-lo num lençol, vesti-lo antes do corpo endurecer, organizar o enterro, transportá-lo para o carro funerário, reservar uma capela no cemitério, avisar familiares e amigos. Criar familiaridade com palavras que não faziam parte do meu vocabulário normalmente: “funeral”, “velório”, “enterro”, “sarcófago”, “lápide”, “sepultura”, “jazigo”. Fora as bizarrices: “catálogo de caixões”, “quebrar os ossos do defunto se demorar demais para vestir”. Na confusão, fui eu que acabei escolhendo a roupa que meu avô vestiria para a eternidade: um terno azul marinho, uma camisa toda branca, meias também azuis. Não se coloca sapato em morto, não sei o porquê.
A cabeça pesada das poucas horas dormidas e do choro. Por que chorar cansa tanto assim? Eu estava esgotada, mas tinha que me fazer sobra para minha mãe, que desde cedo resolvia as burocracias da morte.
No velório, por cima do terno que escolhi, vestiram meu avô de rosas. E todos que estavam ali o cobriram, enfim, de amor. Era estranho pensar que eu nunca mais ia ver os dentes separados dele, tocar sua pele fininha, ouvir ele dizer que apesar dos meus anos a mais, eu ia ser sempre criança nos seus olhos. Essa finitude que a morte impõe… Construí meu avô com o que a morte não leva: memórias. A forma dele de subir escadas, na diagonal para os degraus parecerem menores, a mania de arquear as sobrancelhas na bravura singela, os olhos que quase se fechavam por completo quando ele ria.
Vovô não está mais aqui, mas ele vive em nós — tem muito dele no cruzar de pernas e nas mãos do meu irmão, por exemplo. Nós somos o legado e, enquanto estivermos aqui, ele vai continuar conosco nos retratos e nas lembranças.

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Em falta

Sinto falta da casa em que nasci como do avô de quem herdei o nome. Das árvores onde aprendi a escalar e dos tatuís do Arpoador. Saudade dos passos graves de meu pai chegando em casa enquanto me fingia adormecida. Dos coleguinhas que mudavam de cidade, do pé de bougainville lilás de Búzios. Tenho falta de desconhecer as histórias dos meus livros favoritos e as músicas que, de tanto ouvir, enjoei. Do meu irmão no quarto ao lado e de não fazer ideia do que é ser adulto.
Quanto duram as faltas? Tem anestésico para saudade?
Meu tempo não acompanha passos de relógio. Tento sarar minhas faltas revivendo enredos e adiantando cenas de minhas tragédias e dramas.
De tanto sentir falta, acabei me tornando falta, como os desenhos que não coloria e os poeminhas carentes de última rima. Fui menina de vazios e meios sonhos. Nas incompletudes, me tornei incompleta.
Sentia vontades escondidas e medos transparentes. Eu queria ser forte, mesmo que em ruínas. Por dentro gritava, mas nunca transtornei o silêncio.
Guardava os segredos das amigas e aprendi a dar conselhos para não ter de revelar-me. Até hoje tenho cômodos nunca visitados e sentimentos em jaulas. Em menina, é claro que não confiava nem na própria sombra, sempre tão maior que minha real estatura. Se tinha dores, elas me esgotavam e depois se esgotavam em mim.
Gosto de caramujos e das flores de muitas pétalas. Me encantam as camadas da alcachofra e os vestidos de muito pano. Sem roupa, não sou mais nua que quando me desvelo. Voo feito borboleta, mas sou casulo.
Minha matéria são palavras, que uso para dizer e também para não dizer: nem sempre elas são verdade do coração. Não diria que minto; é que meus pensamentos precisam permanecer em mim: são feito as bactérias que, uma vez em contato com oxigênio, morrem.
Minha vida existe e sobrevive, justamente, nessa sucessão de faltas que me acometem e vou cometendo.

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Onze e trinta e cinco

Saindo da reunião, olho o relógio: 11:35h. Sou transportada para a Rua São Clemente 388 com minha Jansport de veludo cheia de chaveiros e um sorriso banguela.
Era o sinal anunciando o começo do segundo recreio. Um horário que já tanto me disse e hoje, é apenas uma posição burocrática de ponteiros.
Às 11:35h eu disparava para a cantina para evitar a fila – ainda comia salgado de presunto e catupiry e nem sabia o que era glúten. Ralava o joelho. Brincava de pique. Jogava Game Boy.
Naqueles 20 minutos, eu era tão feliz – saberia?
Mesmo no fim da alforria momentânea, ainda restava a alegria de só faltarem duas aulas para ir para casa.
E minha casa era templo. Tinha pão de queijo de lanche e ajuda da mamãe no dever de alemão.
Futebol na sala com meu irmão (e os vasos chineses que quebrávamos) e histórias do Tintim que meu pai contava antes de dormir. Pentear minhas bonecas com Lili e abraçar meus cãezinhos.
Mas eu sempre quis crescer. A vida dos meus irmãos mais velhos parecia tão mais interessante que a minha. Eles falavam de coisas desconhecidas e podiam viajar sem os pais. Beijavam na boca, bebiam cerveja e compravam suas roupas sozinhos. Isso sem falar que já não eram obrigados a estudar matemática nem a usar laço na cabeça.
Meu pedido foi atendido: o horário favorito da minha meninice travessa teve que acompanhar as mudanças que vieram com a idade. Às 11:35h eu também passei a lembrar que não tinha conseguido imprimir o trabalho que valia nota da aula seguinte e perdia aqueles preciosos 20 minutos na sala de computação. No meu último ano de colégio, às 11:35h eu me trancafiava na biblioteca para estudar história e geografia e treinar as redações para o vestibular – 11:35h era apenas o começo do meu dia letivo, que agora durava até sete da noite.
Na faculdade, 11:35h era um horário vazio, apenas o início da aula que duraria até 13h.
O sinal que tocava tão alto na infância latejava na lembrança.
Atualmente, às 11:35h já estou há tempos no trabalho. E só passo por Botafogo voltando de visitas ao hospital. Não noto mais quando dá 11:35h; não fumo nem cigarro para arrumar desculpa e ir tomar um ar puro. No fim de semana, 11:35h é apenas um horário razoável para tomar coragem de sair da cama para enfrentar a vida.
Hoje, na angústia – mal dos ansiosos, que só sentem o gosto depois de engolir o último pedaço – de aproveitar alguns 20 minutos que tanto me valham, tento ser feliz.

Sweet Satchels

Gêmeos

Não achei que ia sentir tanta falta dele – meu irmão, mais velho que eu, me lia no idioma confuso de mim. Ele sabia exatamente quando eu estava furiosa, não porque eu fosse óbvia, mas ele, observador atento e frequente. Meu irmão me sabia tanto, que gêmeos parecíamos. Dividíamos os descobrimentos e nos maravilhávamos diante do mundo que a nós se apresentava ora em bocadinhos, ora de supetão. Nossas barrigas doíam das gargalhadas que nos escancaravam as janelinhas da boca, fazendo barulho e provocando lágrimas. Um dia, uma tragédia: meu irmão iria para longe de mim. Por que não me levava junto? Imediatamente me senti deserta. Como não encontrá-lo sonolento na mesa de café? Com quem resenharia meu dia até o sono aparecer? Não haveria nem tempo de despedida. Se eu pudesse, faria aquela segunda não chegar nunca. Meu cúmplice partiu e me deixou sua ausência. Por que fizemos todas as viagens da infância juntos? Fiquei mal acostumada: sou inexperiente da sua solidão. Ninguém nos ensinou a independência um do outro. Sentindo minha angústia e temendo por mim, minha mãe me deu de presente o reencontro.Eu iria a Nova York no verão; contei as horas – seriam 36 ao seu lado. Começamos a planejar os roteiros: iríamos do Whitney ao MoMa a pé, passeando pelo Central Park – meu irmão já tinha visto as exposições três vezes, mas iria com prazer ao meu lado. Passaríamos o dia pelas galerias do Chelsea e ele me levaria para comer o hamburger de que tanto falara no Soho. Sabendo da minha paixão por flores, iríamos ao Flower Market do Brooklyn, para ver as enormes rosas colombianas. Ruas, cafés, museus; pretextos para vagar por esquinas do presente entre nosso passado e futuro. Saí do avião correndo, não podia desperdiçar um segundo em solo americano. O guarda da imigração ficou desconfiado de minha vinda relâmpago: “vim ver meu irmão”, respondi não cabendo em mim. Ele não se comoveu, – deve ser filho único – pensei. Já em frente à porta de meu irmão, toquei a campainha, tentando ritmá-la com as batidas de meu coração. Diante de mim, ele surgiu. Nosso abraço foi tão forte como aqueles em que comemorávamos o terceiro gol ou quarto gol do Botafogo no Maracanã, sem medo de perder – por um instante, com sensação de vitória não ameaçada, esqueci que haveria nova separação. Melhor assim: sempre detestei despedidas, muito menos de meu irmão. Aos que perguntam se valeu a pena me despencar América afora por tão pouco tempo, eu respondo: “fui ver meu irmão.” E isso basta.

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