Um Spätzle, uma árvore de Natal

Outro dia me aconteceu uma coisa. Não adjetivo porque tenho dúvidas se essa coisa foi engraçada, curiosa, fantástica, extraordinária. O que me aconteceu poderia ser associado a qualquer uma dessas palavras. Eu estava na fila de um restaurante em Nova York. O restaurante era na verdade um museu, o restaurante de um museu, o Neue Galerie. Me disseram que eu não podia deixar de conhecer o tal restaurante, o café Sabarsky, comer um Schnitzel e me sentir na terra da Sissi, onde estive com minha avó experimentando sobremesas típicas e ouvindo suas histórias de européia imigrante.
A espera era de quarenta minutos, mas eu estava lá, sem pressa, sem hora. É bom ficar sem pressa e sem hora e sem interlocutor de vez em quando. Fiquei ouvindo meus pensamentos, as conversas dos outros, e vendo a vida andar tranquila. Eu tinha o tempo nas mãos, como massinha, eu podia moldá-lo como quisesse, fazendo minhoquinhas e bolas com meu tempo que era só meu ali, naquele dia. Decidi esperar.
À minha frente, uma senhora, também só, olhava um panfleto de uma loja de jóias, eu a espiava observar os colares de pérolas cheios de diamantes. Encostada na parede, me remexia. Quando não as costas, meus pés formigavam de estar em pé, parada, ali, há uns trinta minutos, depois de um dia de peregrinação cultural. A senhora, pelo menos cinquenta anos mais velha que eu permanecia ali, de pé. Capitulei e sentei de cócoras, as costas apoiadas no rodapé. A senhora olhou para mim e disse, rindo, que se tivesse alguém para levantá-la de volta, faria o mesmo que eu. Me levantei imediatamente e disse que poderia ajudá-la. Ela tocou meu ombro e sorriu, dizendo que era brincadeira.
Conversamos sobre a fila e sobre tortas austríacas, sobre o Klimt que ficava no primeiro andar do museu e o papo terminou de novo na demora da fila. Gente saindo, nossos colegas de espera entrando, até que avistei um banco e disse a ela que se sentasse, que eu guardaria seu lugar. Ela foi correndo repousar o corpo, feliz da vida, e fiquei guardiã de nossos lugares. Olhei o telefone, as respostas não enviadas, as fotos que tinha tirado naqueles dias e o guardei novamente. Fiquei lendo o alemão da entrada do museu e da nova da exposição em cartaz. Tem tempos que não falo alemão, deve estar uma ferrugem só. Pensei no meu avô, que adorava falar alemão e deve estar conversando com todos os anjinhos na sua língua favorita. Pensei nas aulas do colégio e nas viagens de esqui em que praticava o idioma. Escrevi alguns pensamentos no caderninho que sempre levo comigo na bolsa.
A fila andou mais um pouco. Havia só mais um casal na frente de nós e a senhora, que estava atenta, se levantou e voltou para a fila. Ela olhou para mim e, de cara, perguntou: “você gostaria de se sentar comigo? Assim ocupamos apenas uma mesa.” Aceitei o convite com um sorriso e fiquei pensando que ela tinha o pragmatismo dos alemães. Quem seria aquela senhora? Em breve, descobriria.
Falávamos inglês discutindo o cardápio. Annelore me perguntou como eu tinha uma pronúncia tão boa do alemão. Disse que estudei em escola alemã e meu avô era de origem germânica. A mãe dela era da Baviera. Como meu avô!, retruquei. Mas sua mãe nunca se adaptou aos Estados Unidos e morreu cedo. A essa altura, conversávamos em alemão. O pai foi da Marinha. Annelore teve três filhas, uma delas faleceu há um mês. Silêncio. Ela pediu Wiener Schnitzel, uma vitela empanada, e eu, Spätzle, uma massa cortadinha. Pedi para vir com molho e uma Bratwurst, uma salsicha de vitela, pra acompanhar. Eu e minha mania de mudar todos os pratos do restaurante. Annelore ria e me ajudava a convencer o garçom. Eu pedi um chá de Matchá. Ela ficou curiosa para experimentar, porque já tinha lido a respeito, mas não podia tomar cafeína. Então melhor não provar o Matchá, que é um chá verde mais puro e forte, adverti. Ela lamentou e ficou tentando adivinhar como seria.
Annelore escreve uma coluna semanal para o jornal de Blufton, onde mora, na Carolina do Sul. Eu também sou jornalista, mas vou lançar um livro de contos, estou enveredando literatura adentro, disse. Conversamos sobre escritores e ela disse que preciso ler tudo do Guy de Maupassant, seu contista favorito. Ela pediu recomendações de livros em português. Você certamente achará Clarice traduzida para o inglês, declarei. Quando chegaram nossos pratos, ela lembrou da infância olhando para meu Spätzle. Ofereci-lhe um pouco da comida que me fazia pensar na casa da minha avó que era ucraniana, mas uma cozinheira de mão cheia de pratos alemães.
Enquanto comíamos, ela tirou seu iPhone 4s do bolso e me deu para ler a última coluna, sobre o dilema de comprar uma árvore de Natal artificial ou de verdade, já que a antiga apodreceu desde o último Natal. A compra da árvore de Natal era apenas o gancho para falar do Natal, como esse texto todo, que é apenas um gancho para falar do acaso e dos meus avós a partir de um encontro com uma senhora doce na fila de um restaurante de um museu.
Ela não quis café nem sobremesa, disse que precisava partir. Ela tinha vindo a pé da Times Square até o museu, uns cinquenta quarteirões. Brinquei que ela precisava me prometer que ia pegar um ônibus na volta. Ela pagou a conta e me devolveu à solidão daquela tarde.

sabarsky

2016, oi

Talvez um dos males da minha geração seja tentar resolver tudo num clique, numa mensagem, através de um aplicativo enquanto fazemos cinquenta outras coisas ao mesmo tempo, nenhuma delas em estado legítimo de atenção. Tenho várias janelas de artigos longos que ainda não consegui terminar e uma torre de babel de leituras para almejar conhecimento de livros que se empilham enquanto corro para ler coisas urgentes, do dia a dia, pendências, dou conta de toda verborragia que nos engole dia após dia.
Esse ano, em homenagem à minha avó que prepara com todo capricho a ceia de Natal, arruma a mesa com toalha bordada, faz um banquete com três tipos de carnes diferentes, coloca músicas natalinas para tocar e decora a mesa de centro com velas vermelhas, santos e biscoitos, resolvi deixar o celular dentro da bolsa. Peguei nele rapidinho, para olhar as horas, e depois para saber notícias do meu namorado. Foi um Natal de mais vozes e risadas e menos touchscreen, um Natal de resgate mesmo ao sentido do Natal, lembrando quem foi Santa Klaus e o porquê dos presentes e o que isso tudo tinha a ver com o nascimento do menino Jesus. A ceia durou mais que os outros anos, apesar de termos ido embora para casa no mesmo horário de sempre.
Acabei de voltar do revéillon na Bahia, onde o relógio bate em outro ritmo, o tempo é mais largo e os dias, mais espaçosos. A Bahia renovou de vez minha noção de tempo e do que realmente importa, porque o celular mal pegava, deixando as redes sociais ao relento. Sem elas, formei novos laços e me enlacei ainda mais nos que já tinha. Consegui terminar dois livros, dar uns quinze mergulhos diários no mar e voltar com a barriga doída das gargalhadas que, ao vivo, são muito melhores que em “hahahahas” e “kkkkkkks”.

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